Wilson Bueno
Wilson Bueno
MistériosPaulistanos
Aventuras de dois poetas, um yogui e uma vassoura
Ele, magro e
quase sem roupa, o
branco dos olhos de
uma cor trevosa
Semana passada, no Centro da Memória de São Paulo, ao final de sacudida palestra do crítico Leo Gilson Ribeiro sobre as escrevinhações obsessivas deste vosso croniqueiro, sou apresentado ao poeta Mário Chamie. Não o supunha tão jovial aos 64 anos, dono de uns bigodes grisalhos, e quase imperiais, e sobretudo senhor de um par de bochechas lisas e rosadas. O poeta Mário Chamie poreja saúde e tem um humor em todos os sentidos delicioso. À parte partidarismos estéticos e/ou esteticistas, o que chama atenção nele é este gosto gozoso de viver que o faz um velhote solar e lúcido, lúcido de uma lucidez terna e generosa.
Mas não estou aqui para tecer loas públicas ao vate interessantíssimo - queiramos ou não, parte integrante da cultura tupiniquim desta segunda metade do século - mas para vos narrar uma história de mistério da qual acabei protagonista por mão e obra deste poeta que mais parece personagem fugida de um romance inglês, caída cá neste mundo insensato para bradar que aqui, sim, é que mora a ficção mais deslavada. O poeta Mário Chamie, nessas horas, lembra uma que espécie assim feliz de mágico.
Dez horas em ponto da manhã seguinte, lá estava ele, conforme o combinado, no hall do Hotel Nikei, na Liberdade, pronto a me levar ao encontro do yogui Ravinshannar, não muito longe dali, na Pirituba. O poeta Mário Chamie, já na noite anterior, em torno de um pene ao molho branco nutrido a salmão defumado, do Quattrino, nos garantia a todos os da mesa que Ravinshannar gozava de toda a sua credibilidade, embora fosse capaz, além de vos desvelar o futuro, de façanhas infinitamente mais intrigantes, como as de levitar ou de se fazer seguir por uma vassoura como se estivesse sempre fugindo de uma velha magra. A métafora, claro, é do poeta Mário Chamie que devota às velhas e às magras um desprezo superior, cheio de risos.
Sem mais delongas, o poeta apanha-me pelo braço, cortês, dirigindo-me presto à saída do hotel e dali ao apinhado ruidoso da Galvão Bueno que lembra uma espremida Hong Kong, sob a profusão de letreiros desenhados em ideogramas que parece dançam contra a manhã opaca de Sampa. Do poeta Mário Chamie, só lhe chispam os olhos debaixo das recurvas e grossas sobrancelhas. Como se elas, as sobrancelhas, em inquieto arco, cifrassem um código de quase impossível desvelamento e ao mesmo tempo vos convidassem a viajar o mistério.
Quem aí capaz de recusar o supremo convite? Pelas mãos do poeta Mário Chamie, apanhar um táxi na Barão de Iguape, tocar para a Pirituba onde vive e levita e não cessa nunca de fugir de uma vassoura feito quem foge de uma velha magra, Sua Beatitude Sereníssima, o yogui Ravinshannar, que - detalhe supremo - apenas uma vez ao ano dá expediente em São Paulo, precisamente na primeira quinzena de maio.
Daí a urgência, e o notável empenho do poeta Mário Chamie para me levar até o célebre yogui, tido por muitos como uma reencarnação de Fulcanelli, o alquimista que segundo os esotéricos vem atravessando o milênio, transmutando-se ao seu capricho e gozo. A última vez que Fulcanelli apareceu foi em Roma, alguns dias depois do atentado sofrido por João Paulo II, na Praça de São Pedro, na pessoa de um rabino polaco que morreu de enfarto numa pensão da Nuova Montana o que, desde logo, leva-me a já abalada convicção a descrer ainda mais de Sua Beatíssima Sereníssima e de suas pirotecnias levitacionais e vassourais, se me permite o inquieto leitor.
Mas tudo são flores do excelso mistério se vos flagra a manhã ruidosa de São Paulo, andando pela rua Salustiano de Barros, na Pirituba, a conduzir-vos literalmente pelo braço, gentil premindo vosso cotovelo esquerdo, a leve mas incisiva mão direita do poeta Mário Chamie cujo sobrecenho não mais pergunta, antes afirma com rude certeza: Chegamos!.
Depois de vencermos a longa escada de um encardido sobrado, lá no topo, na ampla sala em que se converte o primeiro andar, absolutamente vazia de móveis, bem ao centro, sobre um almofada, ele, magro e quase sem roupa, o branco dos olhos de uma cor trevosa e as pupilas esbugalhadas, ele, Sua Beatitude Sereníssima, o yogui Ravinshannar - em carne e osso, mais osso que carne, convenhamos.
Leda quimera: ao tentarmos nos aproximar, três parrudos discípulos de Sua Beatitude Sereníssima nos contiveram, contra os quais o poeta Mário Chamie ralhou com raiva, chamando a si a quase intimidade com Ravinshannar. Esquisitos e muito lacônicos, os pupilos que mais pareciam lutadores de sumô, nos repuseram a ambos, a mim e ao poeta Mário Chamie, de novo à porta, no início da escada. Voltássemos outro dia, Sua Beatitude Sereníssima, o yogui Ravinshannar, acabara de dominar, não sem ingentes exercícios, a vassoura que há tanto tempo o perseguia feito uma velha magra.
Fazendo sinal ao táxi, o poeta Mário Chamie, de novo, maçon arqueou o sobrecenho em código, e mais não falou e nem foi instado a falar até nosso completo retorno à segurança do hotel Nikei e do bom bairro da Liberdade.
À porta do elevador que me levaria ao meu apartamento, o poeta Mário Chamie, depois das despedidas, não se conteve:
- Não te falei? Velha e magra...





