Há um trovador árabe, citado por Jorge Luis Borges, Al-Akhbar (645-703 d. C.), provavelmente um dos primeiros poetas a fazer uso da rima, para quem a lua não passava de um ‘‘disfarce noturno do sol’’. Acreditava Al-Akhbar, com inquebrantável convicção, de que era de todo impossível a existência de qualquer corpo celeste, além das estrelas, no ‘‘vazio’’ cósmico, mesmo porque elas próprias, as estrelas, não passavam de miragem humana, ‘‘angélicas chispas inquietas de Alᒒ, para lembrar um de seus versos famosos.
Muitos telescópios depois, e relativamente há pouco tempo, menos de 500 anos, era absolutamente inconteste que o Sol girasse em torno de nós, numa rotação precisa e infatigável, dando aos terráqueos, de favor, a sua luz, a nós que éramos o centro indiscutível do universo. Portanto não é nem um pouco descabida a hipótese do árabe de há tantos séculos, capaz de outro verso de sublime ‘‘logopéia’’, citando, claro, diversa cosmogonia: ‘‘Luzem ao redor do Altíssimo nove Terras aturdidas’’.
Há quem afirme que, em linguagem cifrada, Al-Akhbar referia-se aos nove planetas do sistema solar. Junto com Borges, descreio totalmente da asserção: para os poetas árabes de seu tempo o próprio Sol era só uma dádiva das emanações terrenas, não tendo, nem de longe, a concreção que mesmo os coperniquianos tiveram dificuldade em lhe atribuir, muito mais tarde.
Na semana, astrofísicos norte-americanos afirmaram haver descoberto um planeta, das dimensões de Júpiter, o que não é pouca coisa, girando ao redor de uma estrela situada a 50 anos-luz do Sol. Seria, assim, o nono planeta fora do sistema solar, o que não deixa de ser, de novo, um número intrigante já que somos nove os planetas em torno do astro que os simbolistas chamavam de ‘‘gáudio aurífero ardente’’. Há quem ainda chame o sol, nos jornais, de ‘‘Astro Rei’’, o que, convenhamos, é infinitamente mais pobre que os delírios ‘‘linguais’’ dos simbolistas, capazes também de adjetivar a lua como ‘‘nívea e mênstrua’’. O que é outra viagem cósmica e nauta...
O novo planeta, segundo artigo publicado na (rigorosa) ‘‘Astrophysical Journal’’, que o descreve com uma temperatura média aproximada de 260 graus centígrados, o que invibializaria toda e qualquer forma de vida tal como a conhecemos, gira em torno da estrela Rho Coronae Borealis, da constelação Corona Borealis, a um quarto da distância que separa, por exemplo, o Sol da Terra.
Sozinho no tugúrio, sob a madrugada aturdida, mais de uma vez olhei da janela direto para o céu noturno, no castiço outono de nossa cidade, e dei, a cada entrevista estrela, o mistério de um nome em latim como quem tarde da noite recita Plotino. E me faltaram desinências, dativos, genitivos, capazes de nomear com inteira verdade o mistério profundíssimo das estrelas do céu. E me lembrei de uma velha senhora para quem o ateísmo é a miséria da alma, mesmo porque, segundo ela, acima de nossas cabeças, já começa a concreta existência do céu... Até hoje não soube a que céu esta velha e sábia senhora referia. Talvez aos dois - aonde se fixam as estrelas e àquele outro visitado por Dante com até hoje insuperável poesia.
Outro dado interessante da descrição do novo planeta descoberto pelos americanos é o de que ele leva 40 dias terrenos para perfazer uma volta completa em torno da Rho Corona Borealis, o que sugere, de novo, os caprichos da natureza, capazes de tempo e cadência das mais surpreendentes coreografias. Além da proximidade absurda em que o planeta se encontra da estrela, numa ‘‘intimidade’’ assim de astro e céu apta a confundir o mais experiente astrônomo.
Assombroso contudo é quando ficamos sabendo que tais astros fora do sistema solar são invisíveis mesmo aos mais potentes telescópios, sendo detectados exclusivamente por espectógrafos que têm em foco não o planeta, mas a estrela. Assim como um espelho que denunciasse, no movimento do objeto refletido, alterações, sombras, a imagem intocável de uma miragem celeste. O planeta ‘‘imprime’’ o seu reflexo na visada nossa da estrela.
Sem nunca ter sido visto, ainda assim ele existe, com um rigor de ciência avançada, o que nos assegura que há quase 15 séculos, o poeta árabe antigo, inventor da rima e diligente servidor maometano, não estava de todo imerso no delírio ao fincar no céu feito estrelas os anjos de Alá.

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