Novidade nas bancas e livrarias de todo país: a excelente ‘‘Caros Amigos’’, revista que tenta reaglutinar a brava equipe que fez, entre outros antológicos momentos do jornalismo brasileiro, ‘‘Realidade’’, ‘‘Bondinho’’, ‘‘Ex’’, para ficar só nestes exemplos. Isto para não falar da carreira individual, invariavelmente brilhante, de muitos dos profissionais daquele tempo, com contribuições as mais destacadas em diversas áreas - de Roberto Freire a José Hamilton Ribeiro, de Mylton Severiano (nosso insopitável Miltainho) a Gabriel Priolli.
Formato grande, inteiramente em preto e branco, ‘‘Caros Amigos’’ atende, antes de mais nada, ao anseio amplo, geral e irrestrito, onipresente no inconsciente coletivo brasílico, de podermos contar com uma alternativa à anódina e pasteurizada imprensa que se pratica hoje no Brasil. Propriedade de grandes e lucrativas empresas, jornais e revistas se entredevoram numa estratégia agressiva para manter ou conquistar fatias de um mercado em si restrito e altamente seletivo. As excelências da pauta, e nem poderia ser de outro modo, ficam atreladas aos interesses, no geral medianos, quando não excessivamente acanhados, dos consumidores. Inevitável o nivelamento sempre por baixo.
‘‘Caros Amigos’’, editada por Sérgio de Souza, com direção de arte de Renato Yada, e a contribuição editorial de Leo Gilson Ribeiro (fundador de ‘‘Veja’’, ao lado de Mino Carta) e Roberto Freire é, desde já, a garantia não só de que o projeto vingue nas bancas como a de que, dure o tempo que durar, terá criado um ‘‘fato’’ cultural irreversível no teatro sem cor da mediania brasileira da hora. Deste modo, podemos dizer, sem exagerações, de resto desnecessárias, que ‘‘Caros Amigos’’ reúne todas as condições para, no mínimo, fazer história.
Em formato grande, o que lhe garante excelente visibilidade nas bancas e livrarias, num inquietante preto e branco destacando-se, no mar popcolor, da enxurrada de títulos que inunda os pontos de venda, este primeiro número de ‘‘Caros Amigos’’ destaca, como matéria-de-capa, a bombástica entrevista de Juca Kfouri na qual põe pra fora os não poucos podres do futebol brasileiro e seus mafiosos bastidores, dominados, sabemos, pela politicalha mais suja e mais mesquinha. A reprodução do encontro, que reuniu em torno do entrevistado, nada menos do que José Trajano, Roberto Freire, Sérgio Pinto de Almeida, Hamilton Mellão, João Noro, Hélio Kalfman, Alberto Dines, Sérgio de Souza e Chico Vasconcellos, tenta passar ao leitor, e recuperar, de fato, a delícia mais que gozosa daquelas entrevistas ‘‘coletivas’’ com as quais o legendário ‘‘Pasquim’’ fez escola. ‘‘Caros Amigos’’ aí dá um banho de jornalismo.
Entre outros pontos altos da publicação, impossível não registrar o inédito no Brasil de Gabriel García Márquez - ‘‘A Melhor Profissão do Mundo’’, verdadeiro hino de amor ao jornalismo, pão e paixão nossos de cada dia, com que buscamos, atrás da notícia, ao pé da pauta, realizar o gosto misterioso deste ofício cuja integridade, desde sempre, está em mostrar o homem ao homem mesmo - ainda que isto lhe repugne ou, evitando a realidade, ele faça assim como que uma cara de nojo.
Mas estes destaques aqui, colhidos a esmo, não estariam devidamente lembrados, se esquecêssemos da lâmina afiada e invariavelmente lúcida do escritor Leo Gilson Ribeiro que, neste número da revista, dá um banho de erudição e capacidade interpretativa ao analisar as armadilhas da globalização. Mostra - e prova -, de forma insuspeita, que o buraco, meninos, é mais embaixo.
De Jaguar, a Walter Firmo, de Plínio Marcos a Ricardo Kotscho, de Luis Fernando Veríssimo a Sérgio Cabral, de Guto Lacaz a Frei Betto, de Gabriel Priolli a Alberto Dines, ‘‘Caros Amigos’’ prova, com este primeiro número, de uma carreira que esperamos longa e prodigiosa, que é possível. Ou ainda, que do fundo do lago escuro, possa que ressurja na imprensa do país um halo que seja de indispensável luz.

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