Wilson Bueno
O sanduíche e a utopia
Morre o poeta das viagens
Com a morte de Allen Ginsberg, início desta semana, morre um pouco de cada um de nós os que, nos endiabrados anos sessentas, a década mais importante deste século, nos movimentamos entre a ingenuidade mais crassa e a mais crassa transgressão. Ginsberg foi uma referência luminosa para aqueles tempos de flores, canções de Donovan e a certeza - mais que esperança - de que o mundo e a humanidade seriam bem possíveis. Bastava, cara, um pequeno empurrão -éramos essencialmente bons, o que faltava à humanidade era só um pouco mais de poesia.
Signo perfeito daquela geração que, perplexa, salta direto da Segunda Guerra para os ‘‘êtres’’ e ‘‘néants’’ (os seres e os nadas) sartreanos que a sucedem, filho dileto de uma América aos pedaços, Ginsberg é o exemplo maior e mais típico de uma poesia que se quer entranhada ao cotidiano de seu tempo, intervindo na rua, no parque, sob ou sobre os viadutos de nossas cidades aflitas, disposta a ‘‘transformar’’ a alma humana.
Inexiste o temor ao erro ou ao risco - entre um sanduíche e outro, nas novas estradas da América, a poesia se inscreve até mesmo nos sujos guardanapos de papel com que se limpa a boca dos excessos do ketchup. Excessiva também ela, desleixada muitas vezes, a poesia, entendamos, é só um instrumento para dizer ao homem o homem mesmo. Sem muita intermediação estetizante. O que se quer é o vosso coração para estas palavras andarilhas -moralizantes, sem dúvida, mas só os deuses pagãos para saberem de que moral aqui se canta e fala.
Estamos torcendo,desde já, para que se reedite um livro precioso e certamente esgotado - ‘‘Uivo, Kaddish e Outros Poemas’’, publicado pela L&PM, em 1984, com tradução de Cláudio Willer. Está ali o melhor de Ginsberg: a poética torturante e torturada, neo-épica, gritando desde as confusas cidades do Império, o grito desmedido, muitas vezes propositalmente sem nexo ou sentido, mas grito em carne viva, de quem vislumbra, para além da caretice da hora, a possibilidade do sonho e as esperanças calientes da utopia. Quem não viveu este tempo, dificilmente nos compreenderá a sanha, pelo passado, de um mundo ‘‘melhor’’.
Inextricável destas rememórias de Ginsberg, agora que ele morre profundamente, os paraísos artificiais. Usava-se de um tudo - do peiote às viagens de mescalina - em busca da ampliação das consciências. Escrever, em si mesmo, já encerrava o gérmen diabólico deste ‘‘além-fronteiras’’. Escrever não era para qualquer um - ofício mediúnico, destinado a eleitos consagrados sabe-se lá porque gaio ou grave deus.
E fomos pelas estradas do mundo, de Katmandu ao deserto de Nevada, nossos pobres farrapos coloridos, a moda molamba e inquietantemente cafona que vestíamos, aos trapos, colarzinho-de-arame, pulseirinha de prata encardida, nossa juba, anéis, gargantilhas de sininhos que desde muito longe nos anunciavam a presença. Bando esquivo, ‘‘mancha’’ desusada contra a paisagem anódina dos países em que íamos, falando um inglês estropiado, morando no Queens e dançando, todas as noites, em Picadilly Circus. Debaixo do braço, na mochila ensebada, sob as árvores do caminho, os volumes de Kerouac, Burroughs, Neil Cassady, Gary Snider, Ferlinghetti . E, de todos, o mais inseparável, sabido de cor e salteado - este mesmo Ginsberg que ora morre sem que ultrapasse, um dia sequer, este nosso insensato século - do qual foi cantor privilegiado.
Há muitos anos, numa pousada no sertão da Bahia, conheci um ex-seminarista que acabara de abandonar o convento para cair literalmente na estrada e na vida - vinha de longe, cansado vinha de Irecê, com destino a Salvador. Numa dessas malas caboclas, de papelão encorpado, que era toda a sua bagagem, três puídos volumes, os três em inglês : ‘‘On the road’’, de Kerouac, ‘‘Howl’’ e ‘‘Reality Sandwiches’’, de Ginsberg.
Só tinha um medo: que a polícia, flagrando-o com aqueles livros estrangeiros, pensasse que ele era comunista...

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