Nem tão dinossauro assim, sou do tempo em que um homem vestir calças vermelhas em Curitiba era coisa tão escandalosa quanto este mesmo homem sair hoje de combinaçãodealcinha. Talvez exagere, mas a memória que me ficou do horror na tribo visigoda é muita e variada: há a moçoila desacompanhada e de mini-saia que na metade dos sessenta vi literalmente ser arrancada da fila do então Cine Avenida, na Boca Maldita, sob o vitupério da macholândia; há a bicha Anselma apedrejada até o sangue por universitários na Pça. Santos Andrade sob o argumento de que ‘‘lugar de viado é a Osório’’. Em ambos os casos Freud explica o desamor explícito e a intolerância tácita.
Não havia como a tribo para vigiar, ciosa, a moral vigente e os canônes da hora. Deslocada do mundo ainda ontem, a cidade hoje profusa de acrílicos e insinuando fumos cosmopolitas, não tinha gosto nem vocação para a cor, para qualquer colorido: cinza e bege, marrom e verde-garrafa, danadamente reacionária, a província a tínhamos no coração ainda que com uma ponta de vergonha.
Lembro como se fosse hoje: consciente do papel histórico que lhe cabe e concentrado em sua ação como um guerrilheiro urbano, o poeta Paulo Leminski, então o mais louco e execrado cachorro louco da aldeia, não bastasse a negra e lisa juba, se põe ao longo de toda a rua das Flores, envergando impávida pantalona vermelha. E mais, supremo acinte: camiseta de malha cor-de-rosa! Viva mancha contra o fundo em cinza opaco da cidade fria.
Será preciso acrescentar o que de fiu-fiu, assovio e pasmo das rodas de desocupados pelas esquinas? Imperturbável, acima do Bem e do Mal, o poeta Paulo Leminski, desafiador, vence cruzamentos e faróis, portas de bares e snooquers, lojas de tecido e bazar de quinquilharias, na rua das Flores daquele tempo. Ousadia que gostava de lembrar, assim como um feito heróico, um trunfo seu de velho cão de guerra.
Jamil Snege, escritor exemplar e atento observador do crochê miúdo da tribo, tem razão: Curitiba é a única cidade do mundo onde as pessoas ficam em grupos conversando nas esquinas ou apoiadas às paredes dos edifícios. O que, acrescento, seria espiritualmente elevado e solidário não estivessem, os grupos, falando mal da vida alheia.
Senhor destas memórias e constatações é pois com uma quase perplexidade que me vejo, semana passada, numa sofisticada sex-shop do centro da cidade, sobriamente atendido por uma quase-senhora, casada. No fulgor desta beleza madura e machadiana, que os novaiorquinos chamam de ‘‘wonderful top’’, não se fez de rogada e me levou a conhecer das cabines de porno-show aos (horrendos) bonecos infláveis; de uma profusão de vídeos eróticos a outro ainda mais portentoso lote de cremes, camisinhas, langeries, algemas, chicotes e até, creia-me, e igualmente me permita, pundonoroso leitor, uma vagina de plástico. Nenhum rubor no rosto suave de olhos calmos. Espontânea e profissional, era como ela me perguntasse o que eu fazia ali com o meu encabulamento. Ou de que século eu era sem ter onde pôr as mãos.
Acabei saindo da loja com vasto material publicitário, todo ele superiormente criativo, onde se arguia, entre outras coisas, qual a diferença entre um porco espinho e o espinho de um porco e em que ano foi inventada a camisinha-de-vênus. Perguntas irrespondíveis tanto quanto entender de que textura ou comprimento a duração de vosso orgasmo, matéria prima aliás com que trabalham os folhetos publicitários e a sex-loja em questão.
Frutos de um tempo que se recusa ao intercâmbio humano como um martírio e cuja pedagogia é esta mesma -narcísica, onanista e egocentrada, as sex-shops prosperam, assim como a indústria de vídeos e as sessões corridas dos cinemas pornôs, vendendo a corações solitários o incontaminável e incontaminado sexo virtual deste nosso complexo fim de milênio, ameaçado por aids, meteoros, ebolas.
Um tempo em que o amor seja ameaça é um tempo bem escuro mas não sei de modo pior que aquele outro, de ainda pouco, onde o desamor, filho escuso da ignorância, cobria de pedra, porrada e cuspe, coloridos e de vistosas grenhas, os cachorros-loucos da city.

mockup