Wilson Bueno
Minha avó materna era uma cabocla de olhos azuis. Nunca vi católica mais fervorosa, guardando os dias de guarda, jejuando na sexta-maior e sobretudo, herança antiga, proibindo-se, e a toda a família, a ingestão de carne durante a quaresma. Coube à minha mãe prosseguir com a tradição na família, reduzindo os dias de abstinência para as sextas-feiras e permitindo-se, mesmo aí, generosos filés do melhor pescado, fritos ou cozidos que aliás, no olímpico vigor de seus quase setenta anos, prepara como ninguém.
Isto não existe mais: dia desses, sei apenas que uma sexta-feira, jantando aqui mesmo no bairro, o restaurante de meu amigo José Morgado possuía todos os tipos e modos da boa e suculenta carne vermelha, mas nenhum lambari sequer para atender às exigências da avó cabocla de olhos azuis que vige aqui, do lado esquerdo, ainda hoje como um dogma. Resignei-me a dois ovos estralados enquanto, da mesa, entre skatistas de calças arrastando no chão e fisiculturistas em sumárias camisetas, posto que há uma academia em cima do restaurante do bom Morgado, constatei, não sem melancolia, que o bairro não é o mesmo na exata medida em que não se fazem mais quaresmas como antigamente.
Sou do tempo do peixe vendido à porta de casa pelo ambulante no carrinho entupido de gelo. Nas quaresmas dantanho aumentava significativamente o, digamos, leque de ofertas do pescado: do bagre destinado a supremos pirões carregados na pimenta às tenras tainhas ou às anchovas de sabor deliciosamente pronunciado, de intensa carne e intensos olhos, fartávamo-nos. Sem falar de sardinhas, camarões, lambaris pescados na Vossoroca.
Ateus, agnósticos, comunistas (se ainda existirem), liberais ou porno-názis, búdicos ou católicos, ninguém de nós, confessa!, ousa, hoje ao menos, entrar numa churrascaria. Anda na veia a notícia dos antepassados, impressa em nós feito uma tatuagem. Inútil lutar contra a herança canhestra que antes nos possui do que nós a ela.
Não sei que sal ou saldo das sextas-feiras santas de minha avó cabocla. Chamar de Amor as lágrimas frente à imagem do Senhor Morto em sua urna de vidro, macerado e humilhado várias vezes o Deus que nos ensinaram capaz de tudo, talvez atente contra a verdade. De joelhos ante as chagas expostas do Cristo agônico, bem mais a angústia nossa e os nossos miúdos ressentimentos, bem mais a frustração doméstica e os domesticados aviltamentos. Não posso supor que amor houvesse devotado ao Deus de gesso, esbofeteado na cara, roxo nos joelhos, ferido de lança no flanco esquerdo.
O Domingo de Páscoa era quase um dia comum, não fosse o domingo e a missa; sem coelhinho nem baile de Aleluia, de graça e encanto só o seu jeito estirado de domingo. O que me faz perguntar, tantos anos depois, na noite sozinha do arrabalde, e sem que as paredes respondam, por que não se consagrava o domingo à Ressurreição, em festas e sarabandas? Por que o vezo luso-brasileiro de sofrer damor a alma gemente aos fados do Deus Cristinho? De onde este gosto pelo final amargor e a ferida na cara? Que Jesus é este sem o diáfano da pele ardendo de emoção?
Talvez a minha avó cabocla de surpreendentes olhos azuis, por se chamar Maria Custódia Rosa de Senes, dissesse que a alegria não se chora, e por isso não tem importância. Alegria besta e a esmo, a alegria nossa voa no vento. Grave e profundo é chorar, verter a culpa ancestral, flagelar-se, ver no vivo roxo do Cristo Morto o nosso lúgubre e a nossa angústia. Para nos purgarmos de ambos, talvez, e não me ocorre nenhuma outra função para este ofício de sombra e luto.
Sou mais o recorte dos pombos agitados dos domingos, a brincante grafia com que um deus é capaz de vos pôr nos olhos alegria tão leve e tão suprema, que será puro gozo de vida, atravessada viva, as mil e uma ressurreições que o minuto guarda, cioso de seus segundos.
Feliz Páscoa, culposo, e adorável leitor...





