Wilson Bueno
Wilson Bueno
O gosto lascivo do nada
O riso nem tão risonho do ridículo da vida
Dia desses, Luiz Geraldo Mazza, capaz de mixes surpreendentes, como juntar num mesmo destino Belinati e Silvio Caldas, lembrava, a propósito de qualquer coisa do varejo político, um clássico trágico das letras - A Metamorfose, noveleta de não mais que sessenta páginas, do nunca assaz louvado Franz Kafka. Só o Mazza capaz de tornar pura a matéria impura da politicalha de cada dia. Pelo viés da essência e da mais atilada veia crítica. Sem descuidar, ou por isso mesmo, do que de melhor produziu o espírito humano. Combate, assim, o nosso Mazza, o provisório do varejo político com a eternidade de nuestro engenho, além de me acordar, no sábado a esmo, para a releitura kafkiana.
Lido aos vintanos, o livrinho que releio aqui é outro e ainda mais afiado, pândega tragicomédia sobre a vida de um homem, Gregor Samsa, que acorda certa manhã transformado numa espécie monstruosa de inseto, ou seja, numa barata, desestabilizando a ordem econômica e espiritual de toda a família. Amado & vivido como um símbolo trágico de nosso tempo, com a seriedade de raiz que parece compor a equação trágica, Kafka é, ao contrário, o maior humorista deste século. Riso esquizo, sem dúvida, mas riso que se quer para além do chiste e dos cuentos verdes para lembrar como os argentinos, de um modo quase lírico, e todo próprio, alcunharam as anedotas. O riso em Kafka, sobretudo em A Metamorfose, é um riso acossado, mas de comédia-pastelão.
Ô quão ridícula a vida e o medo da vida! Como não ver, subjacente, o vaudeville, na cena em que o horrendo inseto ousando pela sala de jantar, é recolocado em seu quarto, por um pai temeroso, à custa de golpes com o jornal enrolado como um tacape, cena esta a mesma em que a mãe desmaia na poltrona e hóspedes enfarados, confusos, saem da sala e, para todo o sempre da vida da família, assim com um certo esgar e uma ponta de nojo. Riso patético, ora direis, gentil leitor, contando estrelas, e não é outro o gênero deste riso que brotando do fundo da entranha, nada o comporta nem nada o contém. Riso acuado e ferido de angústia - aos frangalhos a realidade humana como um pastiche.
Há risos que doem como uma faca cravada em vosso abdômem. Não queira, leitor, no mais profundo da noite, deparar-se com sua humanidade irremediável, despida às gargalhadas pela cena pânica de um escritor judeu, de nacionalidade tcheca e língua alemã. Como não chorar de rir com a maçã que arremessada pelo pai atinge um dos flancos da barata, ou melhor, de Gregor, ou melhor ainda, da barata Gregor Samsa? E ali se aloja até que quase apodreça. Como descuidar do que, em Kafka, seja a ancha comédia humana - farsesca e trágica e por isso mesmo cômica, de uma comicidade primeira, essencial ?
Em vão navegamos estantes e andaimes, ao recorte em cinza e negro de Franz Kafka, esquecendo-nos do comediante ferino que ele foi e que, trunfo olímpico, vem lhe garantindo entre nós a permanência. Preferindo a pândega aos jogos de decifração filosofais, aí o sumo e o sublime não só desta pequena obra-prima, mas de tudo o que inscreveu a fabulação de seu gênio único e perturbador.
Assim, como não lembrar nestas mal-traçadas devotadas ao riso, à Kafka e à melancolia, Josefina, a Cantora - rata sutil entre rompantes de esgoto, senhorita de sherzos e trinos? Deste naipe e perfil as agruras de O Artista da Fome e mais que insana a trama absurdamente cômica de O Processo. A letra K ( nome do personagem do romance) é quase a idéia de um homem... Desertor de si mesmo, K se permite a prisão, o tribunal, a arbitrariedade, o abismo. Mas, sabemos, só existem Ks num mundo onde proliferem advogados escusos e juízes ardilosos a serviço de uma tão minuciosa quanto sinistra burocracia de Estado, seus labirintos e gritos de empalados no escuro.
Luiz Geraldo Mazza tem razão: sem as tintas da grande arte como explicar que este nosso velho mundo só ande e se resolva no entrechoque das contradições, no espaço - público ou privado - do conflito? A barata de A Metamorfose é só um aviso.





