Mais do que de grana, impérios empresariais ou de grandes tiragens, uma editora se faz por seu católogo, e nisto os catarinenses, apesar da agrura inerente, com a nunca demais festejada Letras Contemporâneas (Cx. Postal 3201), em Florianópolis, tendo à frente a quixotesca figura do poeta Fábio Bruggemann, estão, sem erro, dando uma lição ao Brasil.
Com vagar e sem alarde, trabalhando a sua argila e não descuidando, um segundo sequer, do propósito primeiro que deve mover uma empresa difícil dessas - o compromisso com a qualidade industrial, a sedução do texto e o prazer superior da mais fina poesia, Bruggemann vem conduzindo de forma olímpica a aventura editorial a que se propôs não faz pouco tempo.
Animadas invariavelmente pela alegria do jogo de escrever, como um tratado de brinquedos, as coleções da Letras Contemporâneas são de uma aguda propriedade e trazem consigo o gosto bom da leitura, não como um fardo impositivo da mais excelsa, e acadêmica, necessidade, mas pela via e virtude do que a arte de ler tem de lúdica e brincante.
Assim, dentre as obras que integram a coleção ‘‘Pequenas Biografias Insólitas’’, por exemplo, flagramos ali, interessante leitor, nada menos do que três títulos que só não aguçariam a curiosidade de um defunto, e defunto ágrafo, por líquido e certo: ‘‘Paracelso & Giordano Bruno’’, de Péricles Prade; ‘‘Vesalius, Paré & Harvey - Três Médicos Renascentistas’’, também de Prade e ‘‘Mozart na Maçonaria’’, de Ambrósio Peters. Este vosso croniqueiro, decifrador obsessivo de papéis velhos, não se recusaria a nenhum dos três.
Vezo de apaixonado pela vocação leitora, na veia como um baque de morfina, sou, já disse e repito, meio esquizo, e não será mentira se me flagrares, tarde da noite, extenuado e insone, de lupa em punho, champollion improvisado da madrugada iguana, debruçado sobre catálogos, de editoras daqui, da Albânia ou de Siracusa. Há os que viciam na leitura de bulas de remédio; sou de outra ciência - a dos catálogos das editoras, quase sempre em letras minúsculas e desde onde será fácil sentir na pele o arrepio de vossa mais crassa ignorância. Uma forma, digamos, de que nos empenhemos numa pedagogia do espírito.
Certa vez, vos segredo, no mais aceso da leitura do católogo de uma editora católica francesa, flagro a pérola de um grego escrevendo sobre armadilhas, exclusivamente sobre armadilhas: dos prosaicos sacos de etmólogos para apanhar borboletas ao sofisticado trançar das arapucas mortais, no chão como uma mina, com que os vietcongs colhiam americanos vivos espetados por afiadíssimas lanças de bambu. O que fazia ali aquele título disparatado até hoje não alcancei compreender. Mas certamente o melhor de uma lista enjoativa que ia das ‘‘melhores orações de todos os tempos’’ até a vida de santos, alguns deles, cá entre nós, sabidamente bem crápulas. Ah, o grego se chamava Andres Andropoulos e o livro, se não me falha a memória, ‘‘Guide des Trappes’’.
Com a Letras Contemporâneas, os catarinenses provam também que é possível fazer bem, e o melhor, ainda que longe do enfarado circuito Rio-São Paulo, já chamado de ‘‘eixo’’, e onde, é só olhar com mais vagar, a cena cultural, salvo as (altas) exceções de praxe, vai de mal a pior. Como contrapor? Através da ladainha auto-piedosa com que provincianos costumam justificar a sua muitas vezes proverbial incompetência, marcada por este vício de raiz que são os paranismos, os catarinismos, os potiguarismos, os curitibanismos banais senão babacas? Ou reinventando o ofício editor com a incisiva pegada com que a Letras, apesar de tudo e de todos, do coro dos urubus invocando a falha & o fracasso, das invejinhas miúdas e dos estertores viciosos da tribo, vem fazendo, com a vitória boa de saber a que foi chamada.
Na continuação, espero comentar três títulos interessantíssimos da Letras Contemporâneas chegados há algum tempo cá no tugúrio e que só agora termino de ler: ‘‘Literatura para quê? ’’, de Carlos Felipe Moisés; o delicioso ‘‘Vincent Van Gogh - Pintor das Cartas’’, de Jayro Schmidt, e o texto acordado de Joca Wolff, no belo ‘‘Mario Avancini - Poeta da Pedra’’.
É, senhores, uma editora se faz com títulos, catálogos, mas talvez nem isto baste se não vos tange, ao toque de cada original pronto para a gráfica, o mistério inquieto e inquietante com que palavras em estado bruto confabulam e formem frases e num cintilante murmúrio conversem, conversem muito e alacremente, sobre tudo e todas as coisas, o tempo, a noite, os parágrafos, as páginas, os capítulos, a linha d’água, de novo o tempo, os guarda-chuvas.

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