Wilson Bueno
A morte do jovem ator paranaense Cleon Jaques, assassinado a facadas, em seu apartamento, recentemente, repõe em cena mais que uma tragédia, uma ignomínia: o veredito da baixa-mídia, constituída por programecos policiais e jornais que quando espremidos vertem sangue, e que têm em comum o extremo mau-gosto e o vezo vicioso de converter em réus as vítimas explícitas deste tipo de atrocidade.
Nada contra os programecos radio-televisivos e muito menos contra os jornais populares - uns e outros fonte de emprego para esta nossa classe a cada dia mais envilecida. O que está passando da hora de repensarmos é o canibalismo moral com que repórteres horríveis e tele-apresentadores sinistros promovem o festim midiático de cadáveres ainda quentes de sangue. Sobretudo se as vítimas são atores, bailarinos, costureiros, cabelereiros, mulheres solteiras, travestis (profissão, mais que opção sexual!) ou confessos homossexuais. Há, sem a menor ética, ao calor da notícia, o pré-julgamento público de pessoas cujos corpos muitas vezes nem foram enterrados. Ôrra, meu! Como ficam as famílias,os namorados, os amigos desta gente? Obrigados a engolir o veredito moral da canalha miúda que se faz passar por imprensa?
Ôrra, meu! Sou do tempo da Revista Matinal, uma voz amiga dos lares paranaenses, apresentada na PRB2 pelo elegante Artur de Souza, patrimônio vivo de nosso rádio. Aliás, onde está a nova geração do jornalismo, encarapitada nos suplementos-de-variedade, que não faz com ele uma ampla e histórica entrevista? Quando à frente de Nicolau, pensei uma edição inteiramente dedicada ao rádio e nela, claro, o velho Artur de Souza teria forçosamente que pontificar como estrela e lume. É que meu passado me condena: aos 15 anos, sob as ordens do Erwin Bonkoski e do Zair Schuster, tinha o meu primeiro emprego - eu e Luiz Augusto Juck - ambos transformados do dia para a noite em radio-redatores dos sofríveis boletins noticiosos da velha Colombo.
A emissora no edifício Pugsley não há mais e eu mesmo não sei onde andem aqueles dias de clube curitibano cheirando a gardênia, encharcados de cuba-libre nas dançantes tardes das orquestras de então. Uns dizem que tudo não passou da encenação delicada do tempo que em nós andou - aranha ávida - pelo passado. Outros, que pura ficção aquelas tardes de domingo, com a sucessão de Nashes hidramáticos estacionados em frente à Sociedade Thalia. Ficou apenas o fotograma em sépia na memória como um dêjà-vu proustiano.
De líquido e certo, só uma coisa: ainda que mais cosmopolitas ficamos menos gentis. O sangue espirra ao meio-dia nos vídeos de agora e a existência de costureiros, bailarinos, cabelereiros, atores, atrizes, artistas do dancing não é bem existência pelo que parece trazer em si de degradação congênita - ainda hoje, pasmem, à beira do Terceiro Milênio.
Mas não é isso que conta na baixa-mídia ou fora dela nesses dias canhestros. Só o poder é glória que honra, eleva e consola: o poder da grana ou da fama e, frequentemente, o poder quase ridículo de DASs 5 de repartição pública. O que é outra história - burocrática e ainda outra vez melancólica.
Ficamos mais egoístas, talvez mais cínicos, e isto não é uma generalismo sociológico-existencial, é a verdade bem crua.
Quando frente ao cadáver de André do Sapato Novo, de Eddy Franciosi, da nega Celestina, da traveca Pâmala Parker, do biscateiro Agenor Maluco, da Riachuelo; quando frente ao cadáver de Russinho e Alemão (que nem tinham completado quatorze anos) , de Margot que dançava nua no inferninho da Visconde de Guarapuava, de Neneca Daher vestida de imperatriz nos Inflamáveis, quando ao lado de seus corpos gelados ouvimos ricochetear pelos jornais, rádios e tvs, as manchetes de suas mortes violentas & violentadas, dizendo que eles, os cadáveres, eram exclusivamente culpados de seu próprio fim, de sua morte horrível na sala dos quitinetes, foi aí que eu descobri, meu amor, que Curitiba não era mais.
A morte e a morte de Cleon Jaques. Não bastava uma só morte e esta em si já bem suja das noites cachorras de agora?





