Wilson Bueno
O Guardador de Fantasmas de Fábio Campana
O que há, sabemos - ô impossível chão - o que há, em última instância, é a morte. Desde a morte abissal com que expulsos do ventre nos flagramos atirados ao ofício insensato do humano até estas mortes outras traduzidas nas pequeninas mortes que em vão morremos, a cada dia, na perplexidade aterrada daquela morte outra, sem paráfrase nem metáfora, sem palíndromo nem filigrana. Não há ir e vir, não há comparar, não há arabesco então - é só a morte defunta e irremediável.
De muitas mortes fala o Guardador de Fantasmas (Travessa dos Editores, 1997, 357 págs.), valente livro com que Fábio Campana inaugura, podemos dizer que sem volta nem retorno - como aquela Morte outra, a incomparável - o seu topos, o lugar do escritor, que sempre foi seu e de onde, aliás, nunca deveria ter saído.
Este livro, senhores, é, desde já, um dos mais importante lançamentos literários deste ano.
Não porque reinvente a linguagem ou traga a público o mais recente achado das lítero-vanguardas que por aí pululam e - muito menos - que se curve à sombra, quase sempre sabendo a mofo, da tradição. Nem uma coisa nem outra: do que aqui se fala é de uma alma em estado de linguagem. De uma autonomia. De honestidade terminal, construída ao longo de um desenredo, posto que o guardador de fantasmas ao invés de tecer a mortalha, é bem mais aquele que a destece - só Deus sabe com que cara de cão!
Do menino intenso e quase sempre esquizo, baixo responsos e rosários, novenas e aleluias, a este outro menino que se surpreende grisalhado e na milésima utopia, que muita vez é não ter utopia alguma, mudou o mundo, mudamos nós ou mudou o Natal? Esta, sábio leitor, a via crucis do guardador de fantasmas. É bem ele que, recorrente perguntador, vai desentretecendo o fio da vida e pode se chamar Carlos, como no livro de Campana - na melhor pegada dos ditos romances de formação- como pode ter o vosso nome, diligente leitor, o vosso nome, o mais íntimo, aquele que grita, blasfema, vitupera e despenca do viaduto às três horas da manhã. Acordando e esfregando os olhos, ainda que aturdido, você dirá que tudo não passou de sonho mau, um desses pesadelos atribuídos à digestão difícil e ao stress dos dias atribulados.
Fábio Campana, na trilha da melhor arte, não se furta e nem desvia o olhar deste inventário de sombras e fezes, de horrores e ignomínia, sem descuidar talvez da débil alegria com que ninamos, um dia, quem sabe?,confessa, corpo, confessa, a fraca esperança. Do hilário Vilalba ao pungente Raul, do pomposo professor paranista versado em Jaime Reis aos estudantes em fúria contra o busto em bronze do Reitor (que, mais tarde, vítima de cruel esclerose, haveria de mijar em público na Augusto Stellfeld), das doutorandas em História da nossa pobre história (oficial) aos bacharéis lustrosos, das putas gozosas das boates dantanho ao comunista histórico na Boca Maldita, de plantão, não é bem inventário o que se pede ao guardador, senão um palavrão cabeludo no escuro.
Sob que língua a gilete que súbito vos riscará a jugular se o tempo é o de homens medíocres, se o tempo é ele mesmo medíocre e todas as árvores e flores deste tempo fedem ao insuportável enxofre da noite iguana que, leitor pânico, andou - sobre minha e vossa carne - tarântula trêmula?
Roman a clef, como dizem os franceses, a grande aventura leitora de O Guardador de Fantasmas não é, contudo, desvendar os personagens reais, daqui ou dalhures, ocultos nos nomes inventados, e nem mesmo o empenho atrás da possível trama de uma história que sabemos de cor e salteado; a grande aventura leitora aqui é a de considerar uma alma que face ao desafio de contar os andados do abismo, não se furtou aos andaimes de nossa construção precária.
Confessa, canalha, confessa, quantas vezes hesitastes entre comprar ou não um revólver para os vossos momentos de pânico? Não é, pois, excesso digestivo do jantar o vosso grito de aterrado no mais profundo da noite.
Melhor que continues não sabendo o que de pulha a gênese do grito? Talvez. Isto até topares na esquina, maldita coincidência!, com ele, o Guardador, dúbio e alto, a longa sombra na calçada, tarde da noite, destecendo sem pressa o último novelo.





