‘‘Poesia a Gente Inventa’’ (Fernando Paixão, Editora Ática, 25 págs., formato ‘‘álbum’’). Com as coloridadas ilustrações de Lizmedeiros, poesia e traço como que dialogam nesta ‘‘sedução explícita’’ devotada às crianças. Aqui, o poeta muita vez genial de ‘‘25 Azulejos’’, (Iluminuras, 1995) exercita o poema que não podendo ser ‘‘fácil’’ se quer contudo elaborado pelo mais engenhoso artesanato.
Introduzindo os pequenos à arte da melhor poesia, em nenhum momento Paixão se curva às obviedades e ao versejar meio idiota com que na maioria das vezes se faz e se funda a poesia destinada às crianças no Brasil. Não faz surpresa que seja assim: é o mesmo e talentoso poeta de ‘‘25 Azulejos’’ o que ‘‘brinca’’ de poesia com as crianças neste livro interessantíssimo.
Só um exemplo, entre inúmeros, com este ‘‘No alto’’, que transcrevo : ‘‘A escada sobe sem degraus/ basta pisar no céu./ Pega um raio de sol/como a coleira de um cão./Lá em cima o quintal / é de leve algodão/ Até as árvores da lua/ têm braços e pernas./ Pra quê? Pra correr da chuva/e beber água no rio.’’
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‘‘O Nomeável e o Inominável, A última palavra da vida’’ (Maud Mannoni, Jorge Zahar Editor, 133 págs.). A célebre psicanalista francesa realiza mais um daqueles seus ensaios às vezes de dilacerante lucidez.
Ao tocar na questão dos doentes terminais, viagem sombria vivida por ela com seu marido, o também psicanalista Octave Mannoni, que faleceu após prolongada agonia, Maud não se furta em denunciar a hipocrisia com que a sociedade, mesmo as mais desenvolvidas, trata a velhice, a invalidez e a própria morte.
Psicanalisando esse corpo social doentio que, vimos em Freud, jamais se imagina mortal, sendo a morte de cada um de nós apenas uma idéia e jamais vivência concreta do real, denuncia-lhe o vezo sinistro de pôr para debaixo do tapete esta e outras realidades incômodas.
Intrigante é o capítulo em que trata da ‘‘Medicalização da Morte’’ no qual devassa a onisciência de nossos doutores, incapazes de conceder ao morituro o seu - inalienável - direito à subjetividade, entendida a fronteira da morte como impulsos vitais, de estrato físico-orgânico, e não como ‘‘linguagens’’ abertas à compreensão ou incompreensão do mundo.
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Sting, Uma Biografia (Wensley Clarkson, Ática, 303 págs.). Não entendo como alguém vivo, e com menos de cinquenta anos, por mais genial que seja, possa merecer uma biografia, gênero essencialmente devotado àqueles que, de uma forma ou de outra, cumpriram um destino. Não é o caso deste recém-lançado volume, acompanhado de copioso encarte fotográfico (em cor e preto & branco) através do qual o jornalista inglês Wensley Clarkson traça a trajetória humana do roqueiro Sting.
Autor de outras ‘‘biografias’’ , tão ou mais precoces que a do ex-baixista do ‘‘The Police’’, como as de Mel Gibson e Tom Cruise, Clarkson amontoa uma sucessão de dados sobre o seu biografado, colhe aqui e ali alguns depoimentos sobre a vida do pop star e dá os trâmites por findos. Um horror.
As anunciadas (na capa do livro) ‘‘revelações surpreendentes’’ sobre Sting não vão além dos mexericos, gossips e segredalhos do carilho, muito caros aos fofoqueiros do show business de plantão. Da infância pobre em Newcastle à mansão de cinco milhões de dólares em Malibu, o que Wensley Clarkson narra é a aventura, de resto de todos conhecida, de mais um (pobre) ídolo de nosso tempo - com as contradições, misérias e grandezas inerentes a este tipo de gente.
Ao final das mais de trezentas páginas de ‘‘Sting, Uma Biografia’’ o que fica é a sensação meio requentada de uma revista velha lida na ante-sala do dentista, pelas chochas ‘‘surpresas’’ e nenhuma revelação que nos toque ou que acrescente, à vida do biografado, ‘‘chaves’’ muitas vezes indispensáveis para maior compreensão de sua obra.
Aliás, motor e propósito de toda biografia que se preze.

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