Wilson Bueno - Minhas memórias de Reynaldo Jardim
Reynaldo Jardim está fazendo 70 anos!
Poeta, designer gráfico, artista plástico, jornalista, calígrafo, ilustrador, a vida andeja, de supremo brazil-trotter, deu com ele em Curitiba, na segunda metade da década de setenta, tendo ficado entre nós quase dez anos, numa agitação saudável e muitas vezes polêmica por conta de seu espírito inquieto, múltiplo, e desconfio até que por conta das suas barbas grisalhadas e caóticas, da basta cabeleira e das suas sandálias de São Francisco.
Mancha dúbia contra a paisagem da tribo, Jardim era dado a inventações várias e nisto de inventar o tempo inteiro foi inventando tantas e tamanhas que acabou desinventando a cidade, trocando-nos por Brasília onde, dizem, continua inventando outras, e ainda maiores.
Setenta anos! E nem precisava tanto: me vejo lá atrás, no final dos sessenta, numa salinha espremida da gráfica Fon Fon, na Leopoldina, Rio de Janeiro. Entre recortes, magazines e jornais, montamos o projeto de uma revista com a pretensão de se constituir em alternativa a Veja, recém-lançada. O grupo é pequeno: Jânio de Freitas, Washington Novaes, José Augusto Ribeiro, Vera Gertel e este vosso escriba, então infante, agregado a eles como um mascote melancólico e de entranhada timidez.
Da janela, as pedras da rua Pedro Álvares Cabral, a tarde demorada dos oitis que sob calor senegalês sequer se movem e quando a brisa toca os papéis das mesas, chega doce e um pouco apodrecida. Somos vizinhos de uma fábrica de refino de açúcar e estamos um pouco atrás do pútrido porto da cidade. Fora, também, o pântano de um tempo que não ousamos dizer o nome, anos cachorros e médicis, a vida lá, molamba e mal-começada.
Data dali a minha primeira memória do poeta Reynaldo Jardim, a mesma barba que, parece, lhe pertence desde sempre, e as mesmas sandálias franciscanas com que, em Curitiba, anos mais tarde, comandaria redações. Lá como aqui a mesma verve e o mesmo encanto - de poeta agarrado ao sonho de existir com uma graça toda especial e primeira: a vida, para Jardim, sempre me pareceu a coisa mais essencial.
Depois da revista Senhor e do histórico Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, acabava de publicar, pela mesma Fon Fon, de Jânio de Freitas, o seu Maria Bethânia. Guerrilha/Guerrilheira. O livro, cassado pelos generais, naquela hora em que falar de árvores era quase um crime, e a noite ainda mais cachorra e ainda mais médici, afundei nos anos setentas cariocas como quem afunda numa vala, e não soube mais do Jardim até reencontrá-lo em Curitiba.
Setenta anos. Ainda ontem, cá na quieta vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, Reynaldo Jardim não contemporiza com a inércia da província: cria momentos singulares da história cultural da cidade e semeia Anexos, Polos Culturais, Correios de Notícias, Curitibas Shoppings. Este último que, ao lado do saudoso Bayard Osna, dirigi no início dos oitenta, tinha o Reynaldo Jardim por todo lado. Uma capa, uma capa, Jardim! Corria ao Correio de Notícias, nas minhas urgências das quintas-feiras e lá vinha ele, nosso vizinho e poeta, inventar sobre a cartolina nua, diagramas de brincante alegria.
Que de momentos no Shopping, senhores! A capa inteira do jornal, standard, estourada, por exemplo, com uma só foto do pas-de-deux de Eleonora Greca e Jair , nos ricos programas de então do nosso hoje massacrado Balé Guaíra. Só o logotipo vazando contra o cinza. Nenhuma chamada. Nenhum ruído. Nenhuma intromissão. Cartaz & pôster, a capa do jornal era um arraso.
Setenta anos do hippie contumaz e do contumaz andarilho!
Bonito que seja deste modo a casa de areia dos setentanos jardinescos posto que assim, nós que miramos nele, quem sabe, quiçá, uma que referência feliz de vida, possamos reacender, baixo amorosa epifania, o gosto mesmo do tempo em nós andando.
Evoé, Reynaldo Jardim. Saravá.





