Vozes familiares de personagens anônimos
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quarta-feira, 06 de junho de 2007
Denise Ribeiro<br>Equipe da Folha 
Eles fazem parte de pequenos momentos da vida de muita gente mas poucos sabem quem eles são. Suas vozes estão nos avisos de embarque da Rodoferroviária, nos anúncios informativos dos ônibus bi-articulados, nos estádios de futebol e nos boletins de trânsito das rádios. São profissionais da voz que mesmo anônimos, ou quase, realizam com satisfação o seu trabalho.
Quem passou pela Rodoferroviária de Curitiba nos últimos 35 anos, por exemplo, provavelmente ouviu a voz de Luiz de Souza, mais conhecido como Borba. Desde que a Rodoferroviária foi inaugurada ele está lá. Era Borba quem estava atrás do microfone quando foi feito o primeiro anúncio de embarque no local, em 1972. Ele diz que de vez em quando alguém vai até a central de som para conhecê-lo.
Querem saber como é o funcionamento. Sempre tem o pessoal que procura, que vem para um bate-papo. Gosto muito desse contato com o público, revela o pioneiro, hoje com 69 anos. Borba conta que antes da informatização do sistema de anúncios de embarque, até cinco profissionais trabalhavam na central de som em cada turno. Agora ele é o único no horário das 18 horas à meia-noite. Hoje o trabalho já não exige tantos funcionários. Mas a gente nunca está sozinho.
A voz que anuncia as paradas aos passageiros dos ônibus bi-articulados e ligeirinhos é de Maria Angela Molteni. Proprietária de uma produtora de áudio, Maria Angela trabalha com campanhas publicitárias e gravações de serviço há mais de 30 anos. Durante seis anos, era a voz dela que fazia os anúncios de embarque gravados do Aeroporto Afonso Pena, em São José dos Pinhais.
Meu divertimento era chegar no balcão da Infraero e pegar os bilhetinhos que deixavam pra mim, afirma. Nos bilhetes os admiradores pediam para conhecê-la e diziam que por causa da bela voz imaginavam que ela fosse uma mulher bonita. Mas Maria Angela nunca satisfez a curiosidade dos admiradores e prefere manter-se incógnita.
Nunca me mostrei. Acho que tem que manter o mistério. É muito mais emocionante que o vídeo porque quem faz a imagem é a pessoa, observa. E assim como os elogios, as críticas acabam fazendo parte da vida desses profissionais. Por causa das gravações que circulam nos ônibus, Maria Angela ganhou até uma comunidade em site de relacionamento: Odeio a locutora do ligeirinho tem 21 membros.
Torcedores do Paraná Clube e dos times adversários também têm uma voz que os acompanha nos estádios, desde o tempo em que o clube se chamava Pinheiros. Luiz Carlos Casagrande, conhecido como Casinha, tem 60 anos e há 36 trabalha no Paraná Clube, onde é gerente social de marketing. É ele quem faz os anúncios informativos ao logo de cada partida disputada pelo time em casa.
Não ganho nada para fazer, essa é minha paixão. Onde o Paraná joga ou tem mando de jogo sou eu quem faz a locução, afirma. Segundo Casinha, o segredo é não incomodar as torcidas. Procuro falar o necessário, porque quem vai ao estádio está afim de ver o jogo. Falo o mínimo possível para não me tornar antipático e não cansar o ouvido do torcedor.
A estratégia de Norma Cecy Kaviski, de 42 anos, é parecida. É ela quem faz a locução das jardineiras da Linha Turismo e do sistema informatizado da Rodoferroviária. Norma também diz que esforça-se para sempre ser agradável. O que eu procuro passar é tranqüilidade, não se sabe por quais motivos as pessoas estão ali, então eu tento passar paz e ser eficiente ao mesmo tempo, explica.
A voz de Norma também já motivou diversas visitas à central de som da Rodoferroviária. Logo que o sistema de anúncios foi informatizado me contaram que um senhor foi me procurar lá e ficou frustrado quando disseram que eu não estava. Ele insistiu e voltou lá pedindo para me conhecer, conta. A locutora diz que um passageiro até fez uma descrição de como ela seria: alta, loira, com aproximadamente 30 anos. Só errou a idade, diverte-se.
Radialista há mais de 30 anos, Juradir Ambonatti, de 53 anos, também coleciona histórias de ouvintes. No caso dele, o nome já está fixado na memória de quem acompanha a programação das rádios da Capital e ele já teve sua voz reconhecida em situações diversas. Uma ocasião que o marcou foi quando um balconista de lanchonete identificou sua voz após ele ter feito o pedido de um refrigerante. Ele voltou com a garrafa e antes de servir parou e perguntou se eu era o Juradir Ambonatti, lembra.
Há 10 anos, junto com Flávio Krüger, Ambonatti é responsável por até 100 boletins diários com informações sobre o trânsito de Curitiba, veiculados por 15 rádios da cidade. Mas o episódio que mais o surpreendeu foi quando perguntou a um deficiente visual se ele queria ajuda para atravessar a rua e ouviu como resposta: Quero sim, Jurandir Ambonatti. Me arrepio até hoje. Aquilo ali foi um negócio assim de outro mundo, conta.


