Voto nulo: protesto ou indiferença?
A incontestável desmotivação da maioria do eleitorado brasileiro em relação às eleições de 1º de outubro, após sucessivos escândalos de corrupção - rememorados intensamente durante o período eleitoral -, fez com que surgisse em todo país um movimento pelo voto nulo.
A campanha, disseminada principalmente através da Internet, incita os eleitores insatisfeitos com a política a anularem o voto. Segundo os defensores do voto nulo, caso essa opção alcançasse a maioria dos votos, novas eleições deveriam ser convocadas.
No entanto, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) se manifestou sobre a questão no início de setembro, pela primeira vez, desmistificando a possibilidade de anulação do pleito caso o número de votos nulos ultrapasse os 50%. O tribunal considera que a anulação da eleição é possível apenas em caso de fraude, e não pelo voto nulo do eleitor.
Esclarecida a impotência do voto nulo frente as opções oferecidas na urna eletrônica, a Folha ouviu cientistas políticos sobre o que representa o voto nulo, que é excluído do cálculo dos votos válidos.
Para o professor de Sociologia da Unifil e Pontifícia Universidade Católica (PUC), em Londrina, Cezar Bueno, o voto nulo é uma expressão política. Uma ação que nega legitimidade à atual forma de organização do sistema político abarrotado por problemas, desilusões, corrupção endêmica e um apetite interminável para aumentar impostos, analisou. No cenário político atual a escolha do voto nulo é mais que um simples protesto contra um candidato, uma tendência ideológica ou partidária. Trata-se de uma resposta ácida ao próprio modelo de representação político-partidário instituído que vem, desde o início dos anos de 1990, colecionando fartos e abomináveis exemplos que empurram o eleitor em direção à descrença generalizada, complementou.
Bueno ainda salientou que o voto nulo do eleitorado consciente reflete o descontentamento com a falta de um projeto de desenvolvimento para o país. Uma tendência crescente em favor do voto nulo, por parte do eleitorado consciente, está relacionada ao fim dos grandes debates, projetos e das utopias políticas que pregam transformação, desenvolvimento, soberania e emancipação. (C.O.)





