No alto de seus pouco mais de 1,40m, Willian Schonhofer Teixeira, 12 anos, é o menor dos bailarinhos a treinar junto com a Companhia de Ballet de Londrina. Com dois anos e meio de aulas, o menino é uma das revelações da Escola Municipal de Dança. Um lugar onde a maioria esmagadora de mulheres prova que o preconceito contra a figura do bailarino persiste durante o tempo.
Com quase 300 alunos na sede e nos quatro postos avançados nos bairros onde a escola atende, dá para contar nos dedos o número de meninos que se aventuram no universo da dança. ''Devemos ter uns 10 na escola'', afirma o diretor Leonardo Ramos.
A musculatura desenvolvida de Willian, fruto de pelo menos cinco horas semanais de treino puxado, não o isenta das brincaderinhas de vizinhos e colegas de escola que acham que dança é coisa para menina. ''Mas não dou bola não, se você quer uma coisa tem que seguir em frente'', afirma o menino que, na verdade, sonha com outro tipo de estrelato. ''Queria mesmo era ser cantor mas dançar vai ajudar nisso e também, se não der certo, eu sigo carreira'', planeja.
Vindo de uma família numerosa, ele tem 3 irmãos e 2 irmãs, Willian tomou contato com a dança nas aulas da escola no seu próprio bairro, o conjunto João Turquino (Zona Oeste). ''Minha família sempre apoiou'', conta.
Na casa de Victor Jubiaba, 15 anos, a decisão não foi tão tranquila e quase provocou um racha na família. Isso porque o pai do garoto é fanático por futebol. ''Enquanto minha mãe e minhas irmãs apoiavam, meu pai queria que eu seguisse carreira no futebol'', conta. O rapaz até tentou. Foi admitido no time de base do Londrine Esporte Clube (LEC) onde jogou por um ano como atacante.
Hoje, ele abandonou o futebol para se dedicar exclusivamente ao ballet. ''Queria fazer os dois mais não dá muito certo'', pondera. A troca das chuteiras pelas sapatilhas, entretanto, é assunto restrito ao círculo de amizades mais íntimas. ''Não falo muito que venho para cá, como o pessoal estava acostumado a me ver como jogador e teve preconceito'', conta. Conhecedor dos dois universos, ele é taxativo. ''Ballet é muito mais puxado'', diz.
Para seguir seu sonho, Guilherme Floriano Silva, 14 anos, tem que fazer malabarismos. Ele é guarda-mirim e só pode treinar três vezes por semana, o restante dos dias é ocupado com as atividades da instituição. ''Desde pequeno sempre gostei de dançar, minha irmã é dançarina de um grupo de cantoras e sempre me incentivou'', conta.
A grande chance de Guilherme surgiu na própria guarda-mirim. ''Um dos inspetores me falou da escola e ajeitou um teste'', diz. Depois de aceito na escola, o problema foi em casa. ''No começo minha tia com quem eu moro ficou meio confusa, agora já aceitou'', conta. Contudo, ele também evita falar da atividade para outras pessoas. ''Na guarda-mirim ninguém sabe'', diz.
Os meninos, entretanto, tem resposta na ponta da língua para as brincadeirinhas maldosas. ''Vá ver a massa muscular que um bailarino tem para ver se é fácil fazer isso'', argumenta Guilherme. ''Acho que os outros têm é inveja que a gente fica o dia inteiro cercado de meninas'', brinca Victor.
Mesmo se não seguirem a profissão, os meninos já contabilizam ganhos com a rígida disciplina onde um joelho levemente dobrado pode comprometer toda uma coreografia. ''Me ajudou nas notas e no meu comportamento, era muito estressado'', enumera Guilherme. Já Victor afirma que ficou mais disciplinado, o que também o ajudou na escola.
''O ballet aumenta a disciplina e melhora a percepção da pessoa com o mundo, aguça sentidos além de preparar o corpo'', argumenta o professor de ballet Wagner Rosa. Segundo ele, apesar do preconceito existir, isso não chega, na maioria dos casos, a exigir uma trabalho diferenciado da escola.
''Só tivemos um caso e hoje o rapaz é bailarino do Ballet Cidade de São Paulo'', diz, referindo-se a companhia de melhor remuneração do país. Nesse caso, ele teve que ir até a casa do aluno, na periferia da cidade, e convencer a mãe do rapaz - uma mulher com fortes convicções religiosas - e o pai, um pedreiro, a liberar o menino para as aulas.

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