O quarto, te digo que era espaçoso, chique e grande. Com papel de parede bonito e tudo. O mais engraçado foi a cara do taxista. Ele pensou: o que esses dois velhinhos vão fazer lá? Quando pedimos pelo Violet Lights foi isso mesmo o que ele deve ter pensado. Francisco e eu, Naji, nunca tínhamos ido a um motel, mas gostamos de aventura. Me parecia lugar de marido levar a amante ou coisa para namorados sem casa própria. Admito que me surpreendi.
A chegada foi estranha. A televisão estava ligada e passava um filme de sacanagem. Tentamos mudar de canal; não conseguimos. Telefonamos, pedimos uma ajuda, mas não topamos que entrasse o moço da manutenção no quarto. Bobagem. Deveríamos ter aceito; queria ver o programa da Hebe. Na hora do jantar nos serviram espaguete. Mas nem vimos os atendentes e nem eles nos viram. Depois que deixaram a comida, servida em louça de porcelana, tocaram uma campainha e se foram. Estava bem gostoso. Meu esposo reclamou das porções, que eram minúsculas para o tamanho do seu apetite.
Para não gastar mais, levamos, de casa, um cantil de água. A cama era confortável e a coberta, que Francisco tirou de um pequeno armário no meio da noite quando reclamei do ar fresco da primavera, fabricada na China. Tomamos nota da marca dos roupões, os quais optamos por não utilizar, mas gostamos da qualidade. Um barulho esquisito durante a noite - Francisco sugeriu que fosse da caixa d’água - não me deixou dormir, mas meu esposo me convenceu para ficarmos lá. Ao acordar, tomamos um café-da-manhã delicioso e trouxemos para casa as frutas e os pacotes com bolachas que restaram.
Francisco me pediu por três vezes, antes que eu aceitasse entrar na banheira de hidromassagem com ele. Como sou do mato, achei que os buracos iam espirrar água na gente. Esperto que é, deixou a água morna, mas não colocou muita. Era quadrada e grande e ficamos deitados lado a lado. Nunca tinha entrado numa banheira antes. O que mais deu medo foi ter de descer a escada - o quarto tinha dois níveis.
Agora temos essa história para contar aos nossos netos. Aos 78 anos, fomos ao motel pela primeira vez. Já te adianto: vamos voltar. Da próxima, se for o caso, o moço da manutenção vai entrar e arrumar a TV. Volto com gosto, mas não fico sem o programa da Hebe.

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