Vocação veio da infância
Na sua célebre obra Homo Ludens, o pesquisador holandês Johan Huizinga nos fala sobre a existência de um instinto ''agonístico'' no ser humano ligado às atividades bélicas e ao combate, que parece permear boa parte dos jogos e competições atuais. Segundo o autor, trata-se de um resquício de práticas primitivas mais violentas como os sacrifícios rituais e os duelos, que se mantém vivo hoje sob formas mais pacíficas e lúdicas.
Essa condição talvez explique porque, quando criança, o cuteleiro Peter Hammer só tinha brinquedos com gatilhos ou lâminas. Enquanto outros jovens da mesma idade se divertiam com caminhões de bombeiro, peões e bolinhas de gude, Hammer passava o tempo com espadas, espingardas e facas. ''A vida inteira gostei desses objetos'', explica ele, que aos sete anos mudou-se de São Paulo para o Pará onde conviveu intensamente com a prática da caça. ''Todo dia depois da escola pegava minha (espingarda calibre) 22 e ia caçar'', recorda. De volta a São Paulo, aos 14 anos começou a praticar tiro esportivo, atividade que lhe rendeu várias medalhas e que desempenha até hoje ao lado da esposa (também cuteleira) e dos dois filhos, de 14 e 16 anos.
Para ele essa proximidade com o universo das armas contribuiu para que ele nunca tivesse problemas com esses objetos. Na sua opinião, os acidentes que muitas vezes envolvem crianças e armas escondidas em casa ocorrem justamente porque estes objetos são tratados como um tabu, algo que acaba por atiçar ainda mais a imaginação dos jovens. ''O cara nunca teve contato (com armas), quando tem vai que nem um louco'', observa.
Para que isso não ocorra em sua casa, ele trabalha com os filhos a noção de ''aplicação, consequência e responsabilidade''. Após cada sessão no clube de tiro, os meninos desmontam suas armas, limpam e as guardam no cofre. (A.A.)





