'Vivo na nóia. É uma bazuca atrás da outra'
''Uma vez cheirei tanto tiner que apaguei. Depois tirei uma chapa do pulmão e o médico disse que já tava tudo detonado'', diz um guardador de carros de 18 anos que vende maconha nas horas vagas. Ele tem os lábios queimados e uma tosse constante, parece ter perdido a coordenação motora para alguns movimentos. ''Ainda jogo bola, mas corro pouco e já me falta o ar''.
''Teve uma mão (uma ocasião), quando tinha uns 14 anos, que fiquei quatro dias sem dormir. Direto na nóia (corruptela de paranóia, efeito colateral do crack e da cocaína), era uma bazuca (cachimbo usado para fumar o crack) atrás da outra. Não sei como aguentei. Aí acabou a pedra e o dinheiro, tomei uma pingas e fui dormir'', recorda. ''Merla é um veneno, é 10 vezes pior que o crack. Cê fica malucaço'', conta o garoto, lembrando da última novidade do mercado, outro subproduto da cocaína.
A reportagem várias vezes tentou descobrir qual é a atração mais irresistível que a droga exerce sobre os meninos. Nem eles souberam responder. ''É uma coisa meio natural na favela, tá em todo lugar. Às vezes o irmão mais velho já tá detonando o moleque do barraco ao lado. Não tem essa de ficar pensando se faz mal. Isso todo mundo sabe. Mas parece que só tem esse caminho'', conta um ex-traficante da zona sul. ''A coisa só vai piorar porque tá sendo mais aceito. Ninguém liga mais se vê uma criança com o cachimbo'', prevê a comandante de uma boca na favela.
Para os entrevistados, as clínicas de recuperação, o trabalho e o esporte não conseguem tirar o fascínio de consumir drogas. ''Eu comecei a cheirar cola quando jogava bola todo dia. É um barato diferente do outro'', lembra o guardador de carros.
''As clínicas misturam o tratamento com a religião e o cara volta pensando que tá recuperado e chega no mundo dele meio perdido. Tá tudo lá, nada mudou. É claro que a casa cai de novo'', conta o ex-traficante que tenta usar o hip hop para a conscientização.
''Trabalhar cedo não resolve. Eu era empacotador de supermercado e já fumava crack. O que vale é a consciência e o ambiente em que se vive'', pondera Sergin, vocalista do Irmãos do Gueto (grupo de rap da zona sul), que mantém abstinência desde que começou a dançar e se apresentar profissionalmente.
O pesadelo da overdose também não assusta. Para remediar o problema que acontece com frequência, os moradores já sabem na ponta da língua o que fazer. ''Tem que enfiar uma colher dentro da boca do maluco, senão a língua enrola. Tem que ir com vontade e segurar firme senão o cara se debate e aí.. já era'', ensina a traficante que já testemunhou algumas convulsões por uso excessivo de crack.
''Uma vez, no mocó onde eu morava, o cara não tinha colher na hora e enfiou a mão. O cara mordeu tão forte que sangrou, mas o mano não soltou, segurou até o fim pra não dá nada'', recorda o flanelinha. Segundo os traficantes, nos casos mais graves, a favela arruma um carro e deixa a vítima na frente do pronto-socorro. ''Lá eles sabem o que faz. Mas se for para morrer, vai morrer do mesmo jeito'', diz a traficante.





