Vivendo em equilíbrio
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
Luiza Xavier<br>Equipe da Folha 
Eles moram em uma cidade que já possui um milhão de veículos circulando pelas ruas, trabalham muito, usam telefone celular, estudam e saem com a família e os amigos para se divertir, numa rotina comum à maioria dos seres urbanos. Entretanto, dificilmente você vai se deparar com algum deles fazendo uma ultrapassagem perigosa no trânsito, gritando com o caixa do banco ou tendo um ataque de nervos na fila do supermercado - cenas corriqueiras de ansiedade explícita.
Para muita gente, são alternativos. Outros, acham que eles adotaram algum tipo de religião e há ainda quem acredite que eles nasceram assim, com esse temperamento zen. Na verdade, esses moradores de Curitiba são pessoas que descobriram modos de conviver bem com os obstáculos e atropelos da vida contemporânea. Ouvindo suas experiências, fica claro que, com um foco definido, persistência e muita força de vontade é possível incluir momentos tranqüilos na correria diária sem a necessidade de mudar para um mosteiro ou local semelhante. O equilíbrio pode estar aqui e agora.
Eu também tenho meus momentos de nervosismo e desequilíbrio. Mas, a volta ao estado de tranqüilidade é mais rápida. Isso é que é legal, afirma o professor de yoga Cláudio Woellner. Ele, que trabalhou por mais de 20 anos como técnico na área de telecomunicações, adotou um novo estilo de vida após enfrentar, em 1994, os sintomas de um estresse profundo. Comecei a sofrer de labirintite e insônia, além de um constante mal-estar. Procurei um neurologista que me receitou remédios fortes, de tarja preta, conta. Como não via a solução nos medicamentos, foi buscar alternativas. Afinal, na jornada da vida, o nosso destino é a felicidade. Essa é a nossa natureza, filosofa.
Claúdio acabou encontrando na yoga o alívio para o estrese e uma nova profissão: ingressou na faculdade de educação física, fez cursos de especialização e, hoje, difunde a prática em empresas, clínicas e até em praça pública. No último sábado, ele realizava uma sessão gratuita, apresentando os exercícios relacionados a esta filosofia milenar, surgida na Índia, a quem passava pela área de lazer da Avenida Arthur Bernardes, no bairro Santa Quitéria. O contato com a natureza direciona a atenção para o presente. As pessoas que param, fazem a prática aqui (na praça) e conseguem se entregar dizem nem ouvir o barulho do trânsito, afirma.
Mudar de atividade profissional, buscando fazer o que realmente gosta, é um traço comum entre aqueles que alcançaram o equilíbrio no cotidiano. Quem ouve a voz tranqüila e observa os gestos suaves da massoterapeuta Lourdes Mariani não imagina que ela, quando atuava como comerciante do ramo de confecções, enfrentou problemas típicos dos ansiosos. Aparentemente, era uma pessoa controlada, entretanto, sofria com dores nas costas, problemas digestivos e gripes freqüentes. Esses talvez sejam os piores sintomas do estresse, porque aparecem sob a forma de desequilíbrio físico. O estressado não é só aquele que perde o controle das emoções, diz ela.
As técnicas da Programação Neuro Lingüística (PNL) e da terapia conhecida como Renascimento que busca a superação do trauma do nascimento por meio da respiração mudaram por completo a rotina de Lourdes nos últimos quatro anos. Adquiri liberdade de escolha e passei a administrar os problemas de uma outra forma. O que mais cria doença é não saber que temos escolhas, aponta.
Durante as palestras que ministra, Lourdes Mariani, que também possui formação em educação física e yoga, ressalta a importância do autoconhecimento para a solução dos problemas cotidianos. É preciso olhar para o contexto em que o problema está inserido e perguntar: o que eu quero de verdade aqui?, qual meu objetivo? que outra forma eu teria para lidar com esse problema?, indica.
A meditação pode ser um dos caminhos para responder de forma mais segura a questões como essas. Para a analista de planejamento Camile Arins, que fazia um milhão de coisas e não conseguia se concentrar em nada, a prática foi fundamental para dar um novo rumo ao dia-a-dia.
Sempre fui perfeccionista, estressada. Hoje faço o que quero. No trabalho, eu paro, respiro e penso antes de tomar alguma decisão. Se não posso resolver determinado problema, procuro alguém que possa, afirma ela, que também recorre a atividades físicas como natação, yoga e muai-thay (boxe tailandês) para manter a harmonia física e mental. Acordo às 5h30 para nadar antes de ir ao trabalho. É algo de que preciso, me sinto com mais energia durante o dia, explica.
Camile, que também trocou de emprego durante sua busca por mais qualidade de vida, iniciada há menos de um ano deixei a área comercial porque lidar com dinheiro dos outros não me fazia bem enfrenta com firmeza a desconfiança de algumas pessoas com quem convive. Tem gente que encara como uma fase. Mas, no ponto em que estou não tenho como voltar, assegura.


