Domingo, 9 horas da manhã. Sol a pino. Barracas e mais barracas. Num giro pelos 11 quarteirões de extensão da Feira Livre da Avenida Saul Elkind, no Cinco Conjuntos (Zona Norte), personagens não faltam. Mas o que dizer daqueles que já passaram dos 50, têm filhos, dupla jornada e, ainda assim, esbanjam pique e vitalidade?
Na banca de Carlos - que não fala o sobrenome, tem 60 anos, e é conhecido como ''Lampião'' -, a garapa é o chamariz. Localizada no fim da feira, a banca garante o sustento da família, composta por cinco filhos. ''A mais nova tem 1 ano e 9 meses'', revela.
Precursor da capoeira em Londrina, Lampião, que pretende voltar a dar aulas, mantém uma plantação de cana, matéria-prima para seu negócio. ''Tenho 15 anos de feira. Durante a semana, eu mesmo cuido da plantação''. Perguntado sobre a receita para administrar a rotina, Lampião não se faz de rogado. E defende o caldo-de-cana. ''Não bebo, não fumo e tomo caldo-de-cana todo dia. Não deixa envelhecer'', garante.
Com um semblante animado, dona Maria Cândida, 75 anos, e seu Severino Miranda, 82, são proprietários de uma barraca que vende tapetes, roupas e biscoitos. ''Os biscoitos a gente revende pra dar uma força para uma amiga, de 80 anos, e as roupas têm nova e seminova, tudo de boa qualidade''.
Há 20 anos na Feira do Cincão, Maria Cândida e Severino, que começaram do zero, alugam outras barracas, por R$ 10, a cada domingo. Durante a semana, dona Maria Cândida faz os tapetes que comercializa e mantém um bazar, em casa. As criações vêm todas da cabeça de dona Maria Cândida. ''É tudo idéia minha. Eu penso e faço''. Seu Severino, por sua vez, vende mandioca de porta em porta, em uma carriola.
Puxar o freio de mão, efetivamente, não é com eles. ''Outro dia eu ia ao banco e estava com uma dor, precisei pedir ajuda para uma filha, chorei com isso... Não quero parar nunca. Graças a Deus, hoje as coisas vão bem, mas não quero parar de jeito nenhum. Não vou morrer'', afirma Dona Maria Cândida, com o sorriso de orelha a orelha.
Com o chapéu para evitar os efeitos do sol, Eunice Domingo Alves bebe uma garrafinha da bebida láctea fermentada, que vende em seu carrinho na feira dos Cinco Conjuntos. E haja disposição. Aos 53 anos, Eunice, que é separada, segue na atividade há 12 anos.
A rotina é alternada entre a feira do Cincão, aos domingos, e a venda de porta em porta, nos demais dias. ''Tenho uma renda de R$ 350, R$ 390 por mês. Aqui, a única coisa que tento administrar é o fiado, na carteirinha, nem todo mundo paga em dia'', revela.
Para Jair José Santana, 63 anos, e a esposa, Maria Mendonça, de 59, há espaço para todos na Feira da Saul Elkind. Versátil no ofício, o casal já vendeu fitas, roupas usadas e mochilas importadas, no espaço de sua propriedade há duas décadas. ''A gente chegava a vender 160, 180 fitas por domingo. Depois, todo mundo começou a gravar a mesma música e aí perdeu a graça, passamos a fazer bolsas''.
A fabricação própria é na residência do casal, na Vila Recreio. A mochila saco é a que mais sai. ''É raro dar algum defeito, a lona é boa e a alça, reforçada. De qualquer forma, a gente dá garantia de um ano ou então conserta'', assegura Jair, que, mesmo aposentado, pensa em continuar na feira da Saul Elkind para completar a renda.
Nem o marcapasso fez Maria Aparecida Pereira da Silva, 62 anos, deixar de trabalhar. O ramo? Os cosméticos. Entre batons, cremes de redução de medidas, rugas e demais maravilhas, Maria Aparecida, que é casada e avó de sete netos, está por aquelas bandas desde 1998.
Tendo o desodorante como o campeão de vendas, Maria Aparecida revende a marca tanto na feira quanto em casa. Apesar de a renda ''não ser como antes'', como frisa, Maria Aparecida cita exemplo recente para seguir. ''Esses tempos fiquei um mês sem vir. Todos sentiram minha falta. É bom saber que o povo gosta de você e vem te procurar. A concorrência é forte, não é fácil, mas, enquanto estiver firme, estou na luta''.

mockup