São Paulo - O tempo ideal eram 17 segundos. Assim que o chef colocasse o último detalhe da decoração no prato, o garçom devia sair às pressas pelos corredores do Seminário Bom Jesus, passar pelo guarda suíço da entrada, abrir a porta e servir com deferência o hóspede Joseph Ratzinger, bem mais conhecido hoje como papa Bento XVI.
Um erro de cálculo e a temperatura de sua picanha de búfalo, de seu salmão ou de sua codorna com creme não chegaria na medida certa. Ainda que soubessem que Bento XVI não tinha o perfil de quem reclamaria dos serviços da cozinha, os empregados queriam dar ao papa o melhor que se podia oferecer naqueles dias de Brasil.
Silvia Aquino é a mulher que esteve por trás de tudo o que rondou a maior autoridade da Igreja Católica em sua estada na cidade de Aparecida, a 167 quilômetros da capital paulista, entre os dias 11 e 13 de maio. À frente de 180 funcionários, cuidou da decoração, do cardápio, da música, de parte da segurança, da imprensa, dos bombons colocados no quarto, dos tapetes no hall de entrada e do cronômetro para garantir que a comida de Bento XVI não esfriasse antes de chegar ao seu quarto.
''Marcamos tudo certinho. Se passasse dos 17 segundos, ela chegaria fria. Pedimos a um padre, o padre Gilson, para fazer o papel de papa e experimentar a comida. Ela chegou perfeita'', lembra Silvia, que foi procurada várias vezes pela imprensa para conceder entrevistas, mas se negou para, em suas palavras, ''não parecer que queria se promover com o assunto''.
Seis meses depois do furacão, a mulher que recebeu Bento XVI ''com o coração nas mãos'' se sente à vontade para colocar tudo o que testemunhou em uma publicação que deverá ser lançada antes do Natal. De nome ainda indefinido, a obra trará fotos de arquivo pessoal tiradas por Silvia e histórias de um bastidor que muitos fiéis e jornalistas pagariam para conhecer.
Enquanto decide os detalhes de lançamento, anuncia ainda que a data será marcada com um recital de piano realizado por Álvaro Siviero, o mesmo pianista que, convidado por ela, deslumbrou Bento XVI em curiosos momentos de privacidade.
Católica de uma família de Lorena, a 19 quilômetros de Aparecida (SP), ex-estudante de colégio de freiras, proprietária do Café do Páteo, no Páteo do Colégio, Silvia Aquino se apegou em suas crenças para não tropeçar no desespero. Nada poderia falhar.
Quando os cães da segurança pessoal do religioso chegaram ao Seminário Bom Jesus, ela sentiu o frio dos preparativos oficiais. ''Eles tiveram de vistoriar tudo. Os cachorros farejavam até a cozinha. E ninguém, nas duas noites em que o papa dormiu no Seminário, podia se hospedar por lá.''
O contato físico com o papa, mesmo para alguém que organizou tudo, não foi além de gestos. O suficiente para ainda emocioná-la. ''Eu participei da missa pessoal de Bento XVI, feita para umas dez pessoas. Foi algo muito especial.''
Música que emociona
Álvaro Siviero, o pianista do papa, conseguiu ir além. Era ele quem tocava, não por acaso, em um legítimo piano alemão Steinweg enquanto Bento XVI almoçava nas dependências do Seminário. Siviero pegou o papa pelo coração, que não resistiu ao repertório de Beethoven, Schubert, Mozart e Bach preparado pelo brasileiro. Bento XVI também é pianista e um apreciador de obras eruditas.
''Eu contei. Enquanto eu tocava, cruzamos os olhares por 15 vezes.'' Ao final da Sonata de Beethoven, o próprio papa puxou os aplausos e disse ''sou muito agradecido ao pianista, que se apresentou maravilhosamente bem''. Siviero, sem jeito, se levantou e sentiu uma mão o empurrando. ''Era a mão de um guarda suíço. Entendi que era para eu ir em direção ao papa. Comecei a chorar, não consigo me lembrar do que falei para ele até hoje. Ele apertou minha mão e me deu um abraço.''
Quanto aos jornalistas, seria possível entrevistar o papa Bento XVI? Silvia responde: ''Ele daria todas as entrevistas que pedissem. O difícil mesmo é chegar até ele''.''

mockup