Foz do Iguaçu - De apostila e caderno abertos sobre a carteira de um colégio estadual, Mateus (nome fictício), 17 anos, recebe a reportagem da FOLHA na noite fria de quinta-feira, em Foz do Iguaçu. Além dele, apenas oito alunos da turma do terceiro ano do ensino médio apareceram para assistir às aulas. Os professores resolveram suspender as atividades, era pouca gente. Com fama de ''CDF'' entre os colegas, o rapaz de fala articulada e maturidade de uma pessoa bem mais velha tem motivos para se aplicar nos estudos. Ex-operário do tráfico e contrabando, ele não hesita em dizer que escapou do fundo do poço.

Hoje integrante do Projeto Bolsa Estágio, da Prefeitura de Foz, que dá aos adolescentes envolvidos em atos infracionais a chance de estagiar com remuneração e estudar, o rapaz agarrou a chance e fugiu da grande possibilidade de virar um número em estatísticas como a divulgada por governo Federal, Unicef e ONG Observatório das Favelas na última semana: a cidade paranaense é a campeã de mortes violentas entre jovens no Brasil, com 9,7 mortes para cada grupo de mil adolescentes. Os números utilizados para o levantamento são de 2006.

Capaz de atrair mais de um milhão de turistas por ano para conhecer a beleza das Cataratas do Iguaçu e a Usina Hidrelétrica de Itaipu, Foz não consegue transformar os frutos do turismo em riqueza plena por conta de uma outra atração bem menos glamorosa: suas fronteiras com Paraguai e Argentina, porta de entrada de muambas e drogas para o Brasil e rota de fuga para criminosos. Contrabandistas, traficantes e assaltantes fazem dos adolescentes seus funcionários prediletos.

''Eles colocam na cabeça dos meninos que 'não vai dar nada' para eles pelo fato de o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) preconizar no máximo três anos de internação para menores. Recentemente, houve um caso de latrocínio na cidade em que um maior levou dois adolescentes até a porta de uma casa para roubar uma camionete. A vítima reagiu e foi morta pelos meninos. Pouco tempo depois, prendemos esse mesmo homem levando outros adolescentes armados para assaltar. Metade dos roubos que ocorrem na cidade são de autoria de adolescentes, que muitas vezes aceitam fazer esse 'serviço' em troca de R$ 500'', explica Luiz Rogério Sodré, delegado do Grupo de Diligências Especiais (GDE) da 6Subdivisão Policial.

A possibilidade de trabalhar para o crime e ganhar um salário que não ganhariam em empregos formais afasta os adolescentes das salas de aulas. O índice de evasão escolar de 5 a 8 séries do ensino fundamental é de 8%. Dos que não desistem, 17,5% reprovam. No ensino médio, o índice de evasão é ainda pior: 16%. O de reprovação é de 12%.

Com Mateus foi assim. Ele chegou a parar de estudar quando viu pai e mãe desempregados, aos 14 anos. Em busca de dinheiro, foi para a Ponte da Amizade trabalhar como ''laranja'' - quem passa pela aduana levando mercadorias acima da cota de US$ 300. O negócio era interessante. Fazia pelo menos cinco travessias por dia e ganhava em torno de R$ 20 por cada uma.

Quando a Receita Federal começou a apertar o cerco na aduana, o menino recebeu um convite para outro emprego. Virou gerente de um dos muitos portos clandestinos das favelas que ficam na beira do Rio Paraná. Fazia o turno da madrugada e ganhava R$ 800 por mês. ''Era a única coisa que eu podia fazer para levar dinheiro para casa. Era um trabalho muito sacrificado. O forte do porto era o contrabando: eletrônicos, pneus, cigarros; mas também chegavam drogas e armas. Eu era o responsável pelo fluxo de mercadorias, para que nada sumisse. De vez em quando a polícia aparecia. Aí o único jeito era correr para o mato feito louco e se esconder. Eu não quis mais'', revela.

Apoiado pelos pais, foi buscar trabalho em outra região do País, porém não suportou a saudade da família e voltou para Foz. ''Nessa época, o dono do porto foi preso e eu sabia que tinham bandidos atrás de mim. Então passava o dia inteiro escondido dentro de casa, sem poder sair. Foi quando vi na televisão uma reportagem sobre o Aliança Jovem (projeto filantrópico que encaminha adolescentes para estágio). Fui atrás e mudei de vida'', destaca o rapaz que hoje recebe como estagiário da prefeitura R$ 560 por mês e se prepara para prestar o vestibular para Direito. ''Vou ser juiz. Coloquei isso como meta de vida e vou conseguir''.

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