Vilas se adaptam e sobrevivem ao tempo na capital
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de novembro de 2007
Denise Ribeiro<br>Equipe da Folha 
Adaptadas ou originais, pequenas vilas de Curitiba que reúnem moradores e profissionais são raras e muito disputadas. A boa localização, a segurança e um charme próprio fazem delas uma espécie de oásis de tranqüilidade entre os altos edifícios e o barulho do trânsito da cidade.
Duas delas resistem ao tempo na Avenida Vicente Machado, no Centro. Com 60 anos, a Vila Ana passou por mudanças na estrutura das casas e ganhou um portão para preservar o local da ação de visitantes mal intencionados, mas mantém o ar de aconchego. Moradora mais antiga da Vila, Nilcy Wagner mudou-se para lá com o marido há mais de 50 anos e diz que só sai dali para o além. Ela lembra que as casas seguiam um padrão e hoje poucas conservam os traços originais. O portão da entrada foi colocado há cerca de duas décadas e recentemente surgiu a idéia de colocar um interfone para reforçar a segurança. Mas nem todos os moradores concordam, afirma.
A maior parte das casas que ainda são utilizadas como residência são habitadas por senhoras que moram sozinhas e que ali sentem-se mais seguras, como Iracema Forleta. Viúva, Iracema mora sozinha na casa que foi da sogra e diz que ali está mais protegida do que na casa na qual morou com o marido e os filhos fora da vila. Ficava muito sozinha. Aqui fico sozinha mas não tenho medo, compara. Para outra moradora da Vila Ana, Pérola de Lara, o sossego é tanto que ela sente-se mais segura ali do que se morasse num apartamento. Aqui tenho as vizinhas, justifica.
O nome da Vila Ana é uma homenagem à sogra de Iracema. Quando meu marido veio morar aqui ele tinha 15 anos. Naquela época, as crianças jogavam bola na rua pra lá e pra cá. Era muito alegre e tinha só famílias, conta. Hoje a vila abriga também escritórios de áreas profissionais variadas. Proprietária de três casas da Vila Ana adaptadas para abrigar a MC Comunicação, Tereza Cristina Silveira Mello diz que o astral do espaço favorece a criação de um vínculo afetivo. Ninguém quer sair por causa da segurança, da facilidade de acesso e do astral. E, nessa, a gente vai ficando, explica. É um local que passa segurança sem ser opressor, completa Cristina que, antes de abrir seu escritório na vila em 1986, já havia morado ali com a família.
Cristina conta que sua mãe também morou lá por muito tempo e foi com muito pesar que deixou o local para viver em um apartamento. Em dez anos, minha mãe morou em umas cinco casas aqui porque não queria deixar a vila, lembra. Segundo Cristina, a procura é constante. Nenhum espaço fica vago muito tempo, observa.
Construída há quase 90 anos, segundo Maria Ligia Gravina Calderari, neta do primeiro proprietário, a Vila Acirema, também na Rua Vicente Machado, era habitada apenas por familiares. Hoje as casas ainda pertencem à mesma família, com exceção de uma vendida recentemente, mas Maria Ligia é a única que continua morando no local. Morei num apartamento e depois de dois ou três anos eu estava aqui de volta. Se eu tiver que sair vai ter que ser muito bem pensado, garante. O nome da vila é uma homenagem a uma tia de Ligia. É América ao contrário porque ela nasceu no Dia da América. Ela morreu quando era criança, conta Ligia.
Para Christiano Saldanha, que trabalha na Vila Acirema há um ano e meio, o maior atrativo do local é a harmonia. Economicamente falando seria interessante construir um prédio aqui. Mas a harmonia é o que valoriza, há menos regras, menos controle. Prefiro um local como esse a um prédio comercial. Acho mais agradável, compara.


