Adaptadas ou originais, pequenas vilas de Curitiba que reúnem moradores e profissionais são raras e muito disputadas. A boa localização, a segurança e um charme próprio fazem delas uma espécie de oásis de tranqüilidade entre os altos edifícios e o barulho do trânsito da cidade.
  Duas delas resistem ao tempo na Avenida Vicente Machado, no Centro. Com 60 anos, a Vila Ana passou por mudanças na estrutura das casas e ganhou um portão para preservar o local da ação de visitantes mal intencionados, mas mantém o ar de aconchego. Moradora mais antiga da Vila, Nilcy Wagner mudou-se para lá com o marido há mais de 50 anos e diz que só sai dali para ‘‘o além’’. Ela lembra que as casas seguiam um padrão e hoje poucas conservam os traços originais. O portão da entrada foi colocado há cerca de duas décadas e recentemente surgiu a idéia de colocar um interfone para reforçar a segurança. ‘‘Mas nem todos os moradores concordam’’, afirma.
  A maior parte das casas que ainda são utilizadas como residência são habitadas por senhoras que moram sozinhas e que ali sentem-se mais seguras, como Iracema Forleta. Viúva, Iracema mora sozinha na casa que foi da sogra e diz que ali está mais protegida do que na casa na qual morou com o marido e os filhos fora da vila. ‘‘Ficava muito sozinha. Aqui fico sozinha mas não tenho medo’’, compara. Para outra moradora da Vila Ana, Pérola de Lara, o sossego é tanto que ela sente-se mais segura ali do que se morasse num apartamento. ‘‘Aqui tenho as vizinhas’’, justifica.
  O nome da Vila Ana é uma homenagem à sogra de Iracema. ‘‘Quando meu marido veio morar aqui ele tinha 15 anos. Naquela época, as crianças jogavam bola na rua pra lá e pra cá. Era muito alegre e tinha só famílias’’, conta. Hoje a vila abriga também escritórios de áreas profissionais variadas. Proprietária de três casas da Vila Ana adaptadas para abrigar a MC Comunicação, Tereza Cristina Silveira Mello diz que o astral do espaço favorece a criação de um vínculo afetivo. ‘‘Ninguém quer sair por causa da segurança, da facilidade de acesso e do astral. E, nessa, a gente vai ficando’’, explica. ‘‘É um local que passa segurança sem ser opressor’’, completa Cristina que, antes de abrir seu escritório na vila em 1986, já havia morado ali com a família.
  Cristina conta que sua mãe também morou lá por muito tempo e foi com muito pesar que deixou o local para viver em um apartamento. ‘‘Em dez anos, minha mãe morou em umas cinco casas aqui porque não queria deixar a vila’’, lembra. Segundo Cristina, a procura é constante. ‘‘Nenhum espaço fica vago muito tempo’’, observa.
  Construída há quase 90 anos, segundo Maria Ligia Gravina Calderari, neta do primeiro proprietário, a Vila Acirema, também na Rua Vicente Machado, era habitada apenas por familiares. Hoje as casas ainda pertencem à mesma família, com exceção de uma vendida recentemente, mas Maria Ligia é a única que continua morando no local. ‘‘Morei num apartamento e depois de dois ou três anos eu estava aqui de volta. Se eu tiver que sair vai ter que ser muito bem pensado’’, garante. O nome da vila é uma homenagem a uma tia de Ligia. ‘‘É América ao contrário porque ela nasceu no Dia da América. Ela morreu quando era criança’’, conta Ligia.
  Para Christiano Saldanha, que trabalha na Vila Acirema há um ano e meio, o maior atrativo do local é a harmonia. ‘‘Economicamente falando seria interessante construir um prédio aqui. Mas a harmonia é o que valoriza, há menos regras, menos controle. Prefiro um local como esse a um prédio comercial. Acho mais agradável’’, compara.

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