O servente de pedreiro José Francisco, 34 anos, deixa sua casa diariamente, às 5 horas, para se dirigir ao tra balho, num can teiro de obras da zona sul de Londrina. A região é nobre, diferente do bairro distante e pobre da zona oeste, onde José Francisco mora com a companheira e dois filhos, o mais novo com pouco mais de 2 anos, e o mais velho com 5. Nosso personagem não utiliza ônibus, pois está economizando para construir um puxadinho na casa construída nos fundos do quintal do pai. Um quarto, sala, cozinha e banheiro, distribuídos no pequeno espaço de 25 metros quadrados, já está pequeno para a família.

Por volta das 6 horas, José Francisco caminhou cerca de quatro quilômetros a pé e está nas proximidades do Lago Igapó, onde dezenas de pessoas aproveitam a manhã ainda fresca de Londrina para fazer caminhada. Gente bonita, algumas devidamente vestidas para a prática dessa atividade, outras se exercitando no improviso. Uns têm pressa, outros aproveitam a caminhada para conversas com acompanhantes, novos amigos ou vizinhos. O que se sabe é que a maioria dessas pessoas, em algumas horas ou minutos estarão, como faz naquele momento José Francisco, se dirigindo aos seus locais de trabalho. Uns terão percorrido, entre a caminhada e o trajeto de casa para o serviço, três, quatro, cinco quilômetros. Outros, menos. Alguns estarão vestidos socialmente, outros poderão trabalhar em trajes esportivos.

José Francisco usa a tradicional calça jeans que usa de segunda à sexta, botinões e uma camisa verde-escura. Leva na mochila a marmita que ele mesmo preparou, com arroz e feijão que sobrou do almoço, um gomo de linguiça e uma porção de refogado de vagem e cebola. Uma garrafinha térmica pequena leva o café passado no coador de pano pela mulher. É quando ele se encontra com Laurides da Silva, 49 anos, porteiro noturno de um edifício residencial nobre daquela região. Silva mora na região norte de Londrina e está se dirigindo ao ponto de ônibus mais próximo, onde tomará um coletivo que o leve ao Terminal Central de Transportes. Lá, ele fará baldeação até seu bairro, onde uma casa de 65 metros quadrados, com três quartos, sala, cozinha, um banheiro interno e outro externo o aguarda. A habitação, popular, já está praticamente paga.

Silva e José Francisco não se conhecem, mas costumam se encontrar quase todos os dias naquele mesmo ponto do trajeto de ambos. Da mesma forma que Ana Maria, 33 anos, moradora da zona oeste. Ela é empregada doméstica e também trabalha numa residência da zona sul de Londrina. Une o útil ao agradável. Há pouco mais de um ano, juntou economias e parcelou parte da compra de uma bicicleta, depois de chegar à conclusão que precisava fazer alguns exercícios físicos para perder peso, ao mesmo tempo em que economiza no ônibus. Ana também não conhece Silva e José Francisco, mas admite que os encontra no seu trajeto até o local de trabalho.

Fato que é comum também a Antonio Leandro, 58 anos, aposentado, que mantém um escritório de representação na área central de Londrina. Ele vai ao trabalho a pé e sempre sai cedo de sua casa, localizada em um bairro da zona sul. Diz se lembrar de Silva, Ana Maria e José Francisco, mas admite nunca tê-los cumprimentado. Os quatro se encontram diariamente, no mesmo local e hora, quando aquela região reúne inúmeros outros trabalhadores londrinenses nas caminhadas das manhãs ensolaradas. Todos prometem se cumprimentar, a partir de agora. Gente de uma mesma cidade, com algo em comum.

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