VIDA REGISTRADA - O colecionador de história
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de outubro de 2007
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
O exemplar de papel já amarelado e surrado pelo tempo quase não tem valor comercial, mas é um verdadeiro ''tesouro'' histórico e cultural. Revela detalhes de um tempo de escrita diferente e do início da história de uma região que se desenvolveu muito mais do que se poderia supor: ''Depois da dispersão dos homens pela floresta para melhor destruil-a, surgem as agglomerações e as cidades. Todas, a joven capital Londrina - Rolandia, fundada em 1934 e que conta já sessenta casas, Nova-Dantzig com 90, Arapongas muito recente -, todas emfim, como nos mostra o mappa, estão postadas às margens da via-ferrea e das estradas, o mais das vezes paralellas.'' Esse trecho foi retirado da reportagem especial ''Uma nova terra - o norte do Paraná'' do Jornal O Estado de São Paulo, de agosto de 1935, quando Londrina contava com apenas três mil habitantes.
O homem que guarda com carinho esse pedaço de história e muitas outras relíquias é o agricultor, artesão e filósofo José Luiz Martini, 46 anos, um verdadeiro amante das artes e da história, que nutre o desejo de compartilhar seus conhecimentos com aqueles que buscam as pistas do passado. Desejo esse que aos poucos vai se materializando, tijolo a tijolo, em forma de um museu de 800 metros quadrados, onde Martini vai expor sua arte e seus objetos históricos.
O museu vai funcionar, a partir de 2008, em uma propriedade rural de Primeiro de Maio (61 km ao norte de Londrina), ao lado da casa do artesão, que hoje também abriga, espalhados por diversos cômodos, as suas relíquias que ''contam'' muitas histórias.
Túnel do tempo
Um passeio pela residência de Martini é a mesma coisa que embarcar em uma prazerosa viagem em um túnel do tempo. Uma verdadeira aula de história. Para aqueles que são antenados e vivem submersos na era cibernética e digital pode ser até um choque encontrar uma máquina de escrever Remington, fabricada há mais de 100 anos, em 1898, e que funciona perfeitamente depois de ter passado por uma restauração.
Em um outro canto da casa repousa tranquila, depois de provavelmente ter trabalhado por muitos e muitos anos, uma máquina de costura de 1845, que o artesão, pesquisador da origem dos objetos que tem, estima ser uma das primeiras fabricadas no mundo.
Quando encontramos um bar de madeira, feito no estilo oriental, Martini conta que a peça foi comprada por sua mãe, na década de 1970, de um mascate chinês. ''Lembro-me bem daquele sujeito batendo na porta de casa para oferecer o bar à minha mãe. O interessante é que tempos depois ele retornou querendo comprar a peça de volta, mas minha mãe não quis vender'', conta o agricultor.
Mais para frente, rádios da época da Segunda Guerra Mundial. Aparelhos grandes e pesados; preciosos em um tempo em que a televisão nem existia e as famílias se reuniam em volta do rádio para um momento de diversão com as rádionovelas ou de informação, com as notícias do lendário Repórter Esso. Tudo muito diferente dos mp3 players que a moçada de hoje utiliza.
Saudosas descalçadeiras
Outros objetos também revelam mudanças de costumes. Um exemplo são os binóculos de teatro, que as ''madames'' do século XIX e início do XX não dispensavam para assistir a uma apresentação teatral. As descalçadeiras também sumiram dos lares brasileiros, mas evitavam o esforço no momento de tirar os sapatos. Algo que seria útil nos tempos atuais, quando tanta gente sofre com ''problemas na coluna''. Outro utensílio em extinção é o cortador de bigode, também abandonado, junto com a transformação da moda masculina. Os ferros de passar roupa, que eram aquecidos a brasa, gás, ou ferro fundido levado ao fogo também mudaram muito.
O acervo de Martini é tão diversificado que fica impossível relatar a história de cada peça em uma matéria jornalística. Para se ter uma idéia, além de tudo que já citamos, ele tem coisas que vão desde uma moeda da família Júlia do Império Romano, mais exatamente um denário, que data de 85 a.C., passando por uma grande caixa registradora que contabilizava réis, dinheiro utilizado no Brasil até 1942, chegando a uma zagaia, arma utilizada para matar onças, no tempo em que existiam muitos exemplares desse animal no Brasil.
Questionado sobre a origem do seu gosto pelas artes e objetos antigos, o agricultor diz que isso é algo sem explicação, talvez um desejo interior. Quanto ao museu, construção bancada por ele mesmo, o ideal é transmitir conhecimento às pessoas.
''Não tenho condições de bancar um museu que fique aberto o tempo todo a qualquer pessoa, porém escolas e outras instituições sempre poderão visitar, com hora marcada, sem custo nenhum. Também quero dar aulas sobre conhecimentos gerais para a meninada de Primeiro de Maio. Posteriormente, quero transformar tudo isso em uma fundação, que deve funcionar em Londrina por ser um grande centro'', finaliza.


