VIDA NOVA - Momento histórico
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sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Rafael Urban<br>Equipe da Folha 
Formado engenheiro agrônomo, Edívio Battistelli, 54, foi convidado para trabalhar com a produção de alimentos em aldeias. "Não entendia nada daquela cultura. Sabia apenas de como isso funcionava entre os não-índios. O que era claro é que eles precisavam do espaço de produção mais importante: a terra." Assim, em 1977, o descendente de italianos e poloneses entrava em um universo que permearia toda a sua trajetória. Até o momento em que seria um dos personagens centrais da conquista por Kakané Porã.
"Comecei em uma época que mais índios morriam do que nasciam no Paraná", afirma. Battistelli é indigenista há 31 anos - termo que ele mesmo define como "profissional que trabalha com os princípios que regem os povos indígenas no Brasil". Em 1978, ele foi um dos responsáveis pelo primeiro resgate de terras indígenas no Brasil, a aldeia de Rio das Cobras, entre os municípios de Nova Laranjeira e Espigão Alto do Iguaçu. "Sofremos muitas ameaças por lutar por aquela terra. Vencemos", diz.
Ontem, pediu para deixar o cargo de chefe do Distrito Sanitário Especial de Saúde Indígena, da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), no Paraná, pois teria de trabalhar do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul. Agora, deve retornar à Fundação Nacional do Índio (Funai). "Quero continuar trabalhando no Paraná. A grande dificuldade é que ambos os órgãos públicos estão engessados. O que dificulta muito, pois a cultura indígena é imediatista e a burocracia demora."
Ele entende que há a necessidade de uma descentralização desses órgãos, que, acredita, precisam estar onde o índio está. Battistelli lembra que, no Paraná, se trata de uma cultura de mais de 4000 anos, caso dos Caingangue, e de 2200 anos no dos Guarani. "São cerca de nove mil Caingangue vivendo em aldeias no Estado e perto de quatro mil Guarani." Um levantamento deste ano da Funasa aponta que são 12.608, distribuídos em 45 aldeias.
Quanto aos moradores de Kakané Porã, Battistelli é categórico. "São os heróicos sobreviventes que merecem receber uma aldeia digna. Não poderiam ter recebido outra resposta", afirma. "Curitiba, que sempre foi a cidade dos estrangeiros não-índios, está buscando se capacitar para gerir a questão indígena. É um momento histórico."


