Vida longa às feras
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
Flora Guedes<br>Equipe da Folha 
Situados no topo da escadaria do jardim frontal do Palacete dos Leões, os dois felinos fazem às vezes de guardiões do casarão centenário, erguido em 1902, no Alto da Glória. Além de adornar o jardim, são símbolos do sobrenome da família para qual o prédio foi construído. Há três meses, as peças de louça portuguesa, com idade estimada em cerca de 200 anos, apresentavam péssimas condições de conservação, com perdas de material, fissuras, infiltrações, acúmulo de sujeira, bolor e colônias de fungos.
Se não fosse um bem tombado, provavelmente teriam sido descartados pelo péssimo estado que apresentavam. A casa foi restaurada e tem boa conservação, mas os leões foram restaurados duas vezes, mas ficaram um longo tempo sem manutenção e estavam muito prejudicados, conta a historiadora, artista plástica e restauradora Ângela Damiani que, juntamente com a artista plástica especializada em porcelana Rosângela Flores, recuperou as duas peças, a pedido do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), proprietário do Palacete dos Leões. A instituição investiu R$ 3,9 mil em todo processo de restauro.
No começo de agosto, os leões voltaram a ser apresentados com pelagem nova e com o aspecto semelhante ao original, de louça. Primeiro, as profissionais retiraram a sujeira acumulada nas peças e a resina aplicada no restauro feito em 1986 quando o casarão também foi revitalizado. A louça e a resina não são compatíveis, porque a louça é um material poroso e a resina dilata e contrai, criando um espaço entre as duas, onde os fungos se instalaram, informa a restauradora, contando que os leões, fabricados no século XVIII, foram trazidos de uma propriedade da Família Leão, em Portugal.
A etapa seguinte foi propriamente o restauro da louça com cimento branco e adesivo de base, um material mais resistente e adequado para este fim. Para finalizar o trabalho, as restauradoras aplicaram esmalte sintético e um revestimento para protegê-los no ambiente externo. O restauro não teve o objetivo de deixá-los apenas bonitos, mas não interferir nos traços originais dos leões e dificultar o processo de deterioração. A força do tempo, na verdade, torna-os ainda mais valiosos, pondera Damiani, que só no processo de restauro descobriu que as peças não eram de porcelana como ela imaginava.
Ficou mais aparente a marca do carimbo da cerâmica de Santo Antônio, na cidade de Porto, naquele azul maravilhoso português. Lá, os leões foram fabricados num sistema de série, a partir de moldes, bem comum naquela época, detalha a restauradora, que entregou ao BRDE um relatório que orienta como deve ser feita a manutenção das peças. A cada seis meses, elas precisam ser avaliadas para corrigir qualquer problema de conservação que venha a aparecer, e, toda semana devem ser limpas apenas com água deionizada, que é isenta de sais.
Já a médio ou longo prazo, Damiani sugeriu que os leões sejam retirados da escadaria e levados para o interior do palacete. No lugar deles seriam colocadas réplicas feitas com cimento pintado e uma plaquinha indicando que os originais estariam abrigados no casarão. As temperaturas de Curitiba oscilam bastante, o que não colabora para a conservação das peças. Removê-las para dentro do palacete, longe da ação do vento, poluição, sujeira e da chuva, nos daria 80% de chances que elas durariam, em bom estado, mais 200 anos, acredita ela. De acordo com a assessoria de imprensa do BRDE, a instituição ainda não estudou a proposta de abrigar os leões dentro do palacete.


