Viagem ao Centro de Curitiba
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Thiago Alonso<br>Equipe da Folha 
O local onde vive o jornalista Ricardo Muinos Garcia, 31 anos, agrega uma série de complicações cotidianas. Para sair de casa de carro, precisa andar três quadras para pegar seu automóvel, que fica em uma garagem particular em que ele paga por mês R$ 120. O prédio em que vive não tem lugar para carro. Depois, Garcia tem de enfrentar ainda o trânsito caótico. Se sai a pé, evita a noite, pois a vizinhança sofre sérios problemas de violência. Dentro do apartamento, no 15º andar de um edifício de 27, o barulho vindo da rua é grande.
Já Liana da Rocha Silva, 58, acha a vizinhança de seu bairro uma beleza. Mesmo morando no 1º andar de seu prédio, o barulho não a incomoda - até porque quase não existem ruídos. Na rua pacata, ela passeia com seu cachorro tranquilamente.
Por incrível que pareça, as duas histórias acontecem no mesmo bairro: o Centro. A diferença são seis quadras. Enquanto Ricardo vive na Rua Alfredo Bufren, Liana mora na Rua General Carneiro. Ao mesmo tempo que o primeiro tem uma bela vista de seu apartamento de uma lado o prédio da Reitoria da Universidade Federal do Paraná (UFPR), do outro o Teatro Guaíra e no meio a Praça Santos Andrade , a segunda não tem uma paisagem tão valorizada, porém, sofre menos com problemas de trânsito, barulho e segurança (este último, em termos).
Morar no Centro, sempre foi uma condição, no caso de Ricardo Garcia. Há 31 anos ele vive no mesmo apartamento. Nasci aqui, diz ele, que hoje mora com a mãe. O jornalista explica que a falta de referências de viver em outro lugar faz com que goste do Centro. Ainda assim, tem o projeto de se mudar mas não para um local muito longe. Há o trânsito, que é uma loucura. Para sair de casa é horrível; se estiver chovendo, então, pára tudo. Tem também a violência. O crack tomou conta de Curitiba. Ainda assim, é muito cômodo viver aqui, diz o jornalista.
Mas há o preço a se pagar pela comodidade. Segundo ele, depois da meia-noite é impossível sair de casa, por causa do perigo. Até para ir ao Largo da Ordem, que é aqui do lado, preciso pegar um carro. Não dá para ir mais a pé. Acho isso um absurdo!, revolta-se o morador. Apesar de todos os problemas, Garcia classifica a região como boa. Para ele, o melhor do Centro é a localização. Tudo está perto e tudo se encontra.
Liana, apesar de viver em uma parte mais calma do bairro, reconhece em sua fala as contradições latentes do Centro. Ela é do Rio de Janeiro e vive em Curitiba há 12 anos no Centro há cinco. Entre as vantagens, vê a proximidade de tudo como o lado postivo. Supermecado, banco, Mercado Municipal, rodoviária. Aqui é o ponto de partida e chegada para tudo, afirma. Ainda assim, diz que o policiamento na área é escasso. Existem muitas casas abandonadas que viram pontos de crackeiros, conta. Nesse ponto, o Centro de Liana converge com o de Ricardo, o que faz lembrar que estão no mesmo bairro.
Rodeado pelos bairros do Batel, Bigorrilho, Mercês, São Francisco, Centro Cívico, Alto da Glória, Alto da XV, Cristo Rei, Jardim Botânico, Rebouças e Água Verde, o Centro reina como o local onde tudo acontece; a região que abriga os bancos, as lojas, os bares, o comércio, os serviços. É também o lugar por onde passam um grande números de pessoas, trabalhadores, desocupados, estudantes, empresários, usuários de drogas, policiais, etc. O ritmo frenético faz com que muita gente nem veja o Centro como um bairro. Mas é. Basta olhar com mais atenção para seus enormes edifícios que a vida que lá habita irá brotar. Com todas as suas contradições.


