Vestibular é um rito de passagem
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 17 de julho de 1997
Zilma Santos 
É um momento complexo, mas muito lindo. Um rito de passagem de fato. É com esta frase que o psicanalista Marcelo Castro sintetiza o vestibular na vida dos adolescentes. Ele alerta, no entanto, que é uma ilusão pensar que toda crise, tensão e angústia que surgem nesse momento têm como única causa o vestibular.
A adolescência já é por ela mesma, um vestibular - diz - , um período de conturbação, de passagem onde o jovem enfrenta pelo menos três lutos: a perda do corpo infantil, a perda da identidade e do papel de criança, e a perda dos pais da infância, o que acaba gerando o conflito de gerações. Nesse contexto, explica o médico, o vestibular conta apenas para dar a expressão dessa angústia. No inconsciente do adolescente martelam duas questões: estou preparado para largar da saia da mamãe? Sou capaz de dar conta disso tudo?, complementa.
Marcelo Castro lembra que para os pais também é um momento difícil, a passagem para um mundo em que eles não terão o mesmo acesso de antes. Há também o luto dos pais, mas o papel da família nessa hora - frisa - é dar apoio, ter atitudes de otimismo, firmeza e incentivo; apostar na capacidade do adolescente.
Além disso, o psicanalista coloca como ponto de reflexão o fato do sistema de ensino exigir que o jovem faça uma opção profissional muito cedo. Não é pedir demais?, pergunta. Em outros países, essa passagem é mais cadenciada, quebra um pouco esse clima de tudo ou nada que é o vestibular.
E para aqueles que já estão calejados de tentar o ingresso em uma universidade - e ainda não conseguiram -, Castro lembra que a frustração de não passar no exame não é definitiva, além de ser um convite a uma revisão de seus objetivos. E dá um conselho aos pais e aos vestibulandos: tenham calma, porque o que não falta é tempo para acertar.
Ele cita como exemplo o caso de um jovem que sempre teve excelentes notas, inteligente, estudioso e que tentou vestibular oito vezes, passou em Medicina e abandonou o curso no quarto ano e também abandonou o curso de Direito, no primeiro ano. Todo o problema decorria do fato do garoto ser depositário de uma profunda angústia dele e dos pais e só foi resolvida anos depois através do tratamento psicanalítico, que promoveu o reencontro dele com sua verdadeira aptidão e o momento dele de entrar na universidade.


