Ver para crer
Curitiba - Antes de marcar qualquer entrevista para esta matéria, era preciso conferir de perto o que realmente acontece em uma casa para casais liberais. Sem revelar que se tratava de uma reportagem, claro. E foi isso que fiz, acompanhado da repórter da FOLHA Carolina Gabardo Belo. Só havia um cuidado a ser tomado: não deixar transparecer que éramos apenas colegas. Afinal, casais montados, como se diz na gíria dos swingers, podem ser expulsos dos clubes se descobertos. Definida uma estratégia para evitar um possível vexame, partimos de táxi para o Desiree Swing Club, nos confins de Santa Felicidade.
Chovia muito naquela noite de sexta-feira, e o motorista foi sincero quando soube o destino da corrida. Se o jornal não tivesse convênio com a nossa cooperativa, eu não levaria vocês. Lá é muito escuro e perigoso. Mas o caminho não ofereceu grandes dificuldades, apesar de incluir a passagem por uma ponte de madeira e um trecho de terra. Em menos de meia hora, estávamos lá. O taxista, mais aliviado, aceitou nos pegar no fim da noite.
O terreno, iluminado por tochas, revelava um casarão e um amplo espaço para carros de todos os tipos e marcas. Na porta do clube, um batalhão de seguranças revistava os casais. Confirmamos nossa reserva (feita por telefone no dia anterior) e logo recebemos a primeira orientação, na verdade uma palavra amiga. Ninguém aqui é obrigado a fazer o que não quer, disse um sujeito com pinta de guarda-costas, porém bonachão.
Em seguida, um rapaz nos levou para um tour pelo local. Primeiro, mostrou a pista de dança, o bar e um balcão com pratos, talheres e vasilhas. Era o bufê de sopas, cortesia da casa naquela noite. Também passamos por uma lojinha que vende trajes sensuais e, para nossa surpresa, peças comuns. Tem gente que perde a roupa por aí e não pode voltar para casa pelado, explica uma funcionária.
Chegamos então às áreas reservadas para as brincadeiras entre casais. A saber: dark room (o recinto totalmente escuro onde ninguém é de ninguém), cabines compartilhadas, quartos privativos (pagos à parte) e aquário (uma espécie de vitrine do sexo). Mas nada se compara ao salão localizado nos fundos do clube, equipado com uma cama enorme. Ali, dezenas de pessoas podem se embolar ao mesmo tempo, enquanto outras tantas observam em silêncio uma placa na parede pede que os presentes evitem conversas e risadas desnecessárias. Aliás, sinais com avisos e normas de conduta estão espalhados por todo o clube, bem como rolos de papel-toalha.
De volta ao espaço central, ocupamos uma mesa em frente à pista de dança, embalada por hits de FM. Os casais vão chegando e é impossível definir a média de idade predominante. Há desde jovens de 20 e poucos anos até gente mais madura, na faixa dos 50. Por volta da meia-noite, o lugar já está cheio. As garçonetes, enfeitadas com orelhas de coelhinho, correm para dar conta de tantos pedidos. O clima inicial é o de uma balada convencional, não fosse a presença de strippers de ambos e sexos. Alguns casais, certamente habitués da casa, cumprimentam os dançarinos como se fossem velhos amigos. Mas à medida em que o álcool sobe à cabeça, as pessoas vão se revelando. Na mesa ao lado, por exemplo, uma esposa se transforma depois de tirar o blazer pesado e escuro. De salto alto, usando apenas sutiã, calcinha e uma micro-saia (praticamente uma faixa na cintura), ela inicia uma dança do poste digna de profissionais. O marido só fica olhando, imóvel, com um cigarro na boca. Levanta-se apenas para buscar mais bebida para a mulher, que ostenta uma aliança grossa e brilhante. Lá por 1h30, o DJ toca uma música lenta e anuncia que o jogo do relógio vai começar. Vários casais formam um círculo em volta da pista, enquanto todas as luzes são apagadas. Quando acendem, por um instante, é hora de trocar de parceiro. Algumas duplas somente dançam. Outras partem para carícias mais ousadas.
Terminado o aquecimento, os corredores das áreas reservadas pegam fogo. É gente para lá e para cá, porém ninguém pode andar desacompanhado (dias depois, quando revelei ao dono do Desiree que estive lá, ele afirmou que nos safamos de uma expulsão justamente porque ficamos juntos o tempo todo).
Como prevíamos, a sala do camão, como é chamada, está lotada. São vários grupos amontoados, e é difícil saber quantas pessoas participam de cada um deles. Não demora muito e um forte odor toma conta do recinto. É hora de chamar o táxi. A conta fica em R$ 80 R$ 60 só do valor da entrada para o casal.
No carro, comentamos nossas impressões finais e chegamos à mesma conclusão: o que vimos na casa não nos chocou, tampouco excitou. Fomos envolvidos em uma atmosfera de tanta naturalidade que mesmo a visão do sexo grupal ao vivo e em cores se tornou banal. Estava dado o primeiro passo para a compreensão do mundo swinger. (O.G., colaborou Carolina Gabardo Belo)





