Vendendo no grito
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quinta-feira, 28 de junho de 2007
Marcos Martins<br>Equipe da Folha 
Em meio à aglomeração de pessoas que circulam pelo calçadão da Rua XV, no Centro de Curitiba, palavras saídas de um alto-falante despertam a atenção de pedestres e motoristas. Elas ecoam pelo local, levando ofertas de uma loja de perfumes e cosméticos. E atraem não só consumidoras ávidas por preços baixos, mas curiosas com o dono da voz. Elas vêm aqui para ver quem é, algumas elogiam, outras se surpreendem, falando que não esperavam que eu fosse magro assim, diverte-se Anderson Cabral.
Na atividade há nove meses, ele já anunciou de tudo: materiais de construção, remédios, comida, perfume. Agora, com a experiência acumulada, Anderson admite que o início foi difícil. Eu pegava o microfone e conversava, como se estivesse falando com uma pessoa. Mas é preciso ser diferente, usar algumas técnicas e saber o que dizer, para não cansar tanto a voz, explica. Outro segredo, segundo ele, é muita água. Tem que beber bastante, senão não agüenta, conta. Na rua, as office-girls aprovam a estratégia. Chama a atenção, uns falam umas coisas engraçadas. A gente acaba entrando para ver, confessa Patrícia de Souza. Tatiane Cristina concorda. Mesmo não procurando nada para comprar a gente entra por causa do anúncio, revela.
Na loja de móveis e eletrodomésticos, Ramon de Oliveira aposta na criatividade. A carreira começou com a apresentação de um festival de dança em Piên, cidade no interior do Estado. Foi uma chance que eu tive e dela partiram convites para alguns trabalhos nas rádios de lá. Mas o mercado está difícil, então vim pra cá buscar serviço e consegui este, conta. Com o jornal de ofertas na mão, ele cria slogans com as ofertas, intercaladas com música. Você precisa saber passar a mensagem de uma forma que atraia a pessoa que está andando pela calçada. Se ela está numa loja e ouve que aqui tem o produto mais barato, com certeza vem dar uma olhada, avalia. O resultado é um emprego que une o útil ao agradável. Eu me divirto bastante, é isso que importa, resume.
Em uma volta pelo Centro é possível encontrar dezenas de lojas com um equipamento de som na porta, pronto para anunciar as promoções do dia. E se a concorrência é grande, é preciso investir em diferenciais. Apostando nesse espaço é que Maicon da Silva encarna um famoso personagem do cinema, o Máskara. Gaúcho de Passo Fundo, o jovem de 19 anos que queria ser jogador de basquete anima o público e engrossa a lista de clientes de uma loja de calçados. Eles param para brincar e acabam entrando, afirma. Ex-vendedor de anúncios de jornal e ex-garçom, ele desfila pelas ruas da capital há sete meses, quando veio para Curitiba. Uma amiga falou para eu criar um personagem, então eu pensei no Máskara. Queria usar uma máscara mas me falaram para pintar o rosto. Como achei que eu tinha alguns traços semelhantes com ele, apostei e nasceu o personagem, relembra.
Antes de entrar em cena, Maicon gasta cerca de uma hora com a produção - que além da tinta no rosto inclui aquecimento da voz. O segredo do trabalho é gostar do que faz. Eu digo para as pessoas que ser chato é fácil, mas cativar as pessoas não. O Máskara já é um personagem conhecido, mas tem que fazer direito, senão as pessoas não gostam, explica.
Seja em cima da pequena bicicleta ou com uma bolinha, as pessoas vão parando e curtindo o show. É muito divertido, ele é muito bom. Acho que a loja vai vender bastante, aposta Antônio Batista. A estudante Marina Guimarães também se diverte. Ele faz umas coisas muito engraçadas, aí sempre paro para ver. Quebra a rotina da gente, revela.#


