Vencendo as limitações com otimismo
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de março de 2008
André Amorim<br> Equipe da Folha 
No dia 8 de junho de 1983, o engenheiro mecânico Renato Maia Wolochate, então com 32 anos, sofreu um acidente de trabalho que transformaria para sempre sua vida. Uma lesão em sua medula espinhal causada pela queda de uma barra de aço o condenaria a rodar para o resto de seus dias em uma cadeira de rodas. O que para muitas pessoas poderia ser o início de uma vida resignada, para Renato foi o primeiro degrau de uma nova batalha para recuperar sua qualidade de vida.
Sem se deixar derrotar pelas limitações que a lesão lhe impunha, ele reaprendeu a viver seu dia-a-dia, criou dois filhos que na época do acidente eram crianças, continuou trabalhando e hoje ajuda outras pessoas na mesma situação que ele. No ano passado lançou o livro ''Não ando, mas rodo - ABC do Lesado Medular'' e desde então vem realizando palestras motivacionais em diversas instituições, onde conta um pouco de sua história e de como se adaptou à essa nova condição de vida.
Em sua casa, no bairro Portão, ele concedeu a seguinte enrevista à Folha de Londrina:
Folha de Londrina - Como o senhor reagiu depois do acidente?
Renato Wolochate - Em primeiro lugar a esperança de voltar tudo ao normal, tanto que eu não queria que mexessem na minha casa. Só que depois da recuperação, quando a poeira vai assentando, a gente vê que tem que melhorar a cadeira, antes eu queria uma cadeira provisória, achando que ia voltar, depois resolvi melhorar a cadeira, melhorei a cama, comecei a adaptar a casa e a pensar mais em termos de continuidade. Mas eu sempre tive muita fé, muita garra, muita força de vontade, então as coisas não foram como muita gente diz ''ai, a pessoa é derrotista, é pessimista'', eu não, eu sou otimista. Quando me perguntaram se alguma eu tinha colocado a cabeça no travesseiro e chorado eu dizia não, nunca, minha situação sempre foi olhar pra frente, positivamente, vencer os obstáculos e seguir adiante.
Folha - O que te deu mais força pra manter esse otimismo?
Renato - A parte espiritual, a fé, as metas de vida. Eu sabia que tinha que vencer, tinha filhos pequenos, sabia que não podia me entregar porque eles precisavam de mim.
Folha - E como foi voltar a trabalhar?
Renato - Na verdade eu nunca parei, sempre tinham pessoas que me pediam auxílio na parte técnica de engenharia mecânica, na parte administrativa. Tive que assumir o lar, tanto que hoje sou um homem que sabe administrar a casa, sei fazer a compra, sei fazer cardápio, só não cozinho porque não tenho condição, mas faço tudo, sempre tem muita gente em casa, amigos, meus filhos, meus netos. Eu tenho doméstica, tenho funcionário para me ajudar, mas tive que aprender a dirigir tudo isso.
Folha - O senhor era esportista, antes do acidente?
Renato - Eu não era um ás no esporte, mas olha só o que eu praticava: caça submarina, trail (tipo de enduro de motocicleta), esqui aquático, vela, tênis de campo, futebol de campo, futebol de areia e natação.
Folha - Essa perseverança vem de família?
Renato - Minha mãe era muito forte. Ela tinha dificuldades, mas sempre era tida pela família como o mastro. Então ela orientava nas dificuldades, isso ela passou pra mim. Ela sempre passou a idéia que a gente nunca podia se entregar, tinha que batalhar e a única derrota que existia era um degrau para a próxima batalha.
Folha - Depois do acidente em algum momento você teve raiva do seu destino?
Renato - Não, acho que a carga é de cada um. Tem gente que sofre com um resfriado e outros, que são otimistas, têm situações gravíssimas e levam a vida em frente. A derrota é pra pessoas que já têm problemas. Se a pessoa já tem um problema psicológico, de depressão, e ela tem uma lesão, um problema econômico ou perde alguém, é mais grave para ela.
Folha - Quanto tempo demorou para o livro ficar pronto
Renato - Uns 4 anos, o problema é a edição. A Klabim me ajudou na primeira edição, com isso abriu-se as portas para a divulgação. O título do livro: ''Não ando, mas rodo'', é como aquele ditado: ''Quem não tem cão caça com gato''. Então se eu não posso resolver minha vida de um jeito, resolvo de outro, se eu não ando, tem que ser rodando mesmo. A capa é um vaso quebrado com uma flor, ou seja, uma pessoa com uma lesão pode produzir.
Folha - Você encontra essa perseverança em outras pessoas com lesão medular?
Renato - As pessoas geralmente vêm me dizer: ''Você é um exemplo de vida''. Eu digo ''Não, não sou um exemplo, vá na associação dos deficientes e você vai ver que a maioria é igual eu''. A gente chega numa encruzilhada que escolhe, é viver ou morrer. Quem escolheu viver, vai batalhar e é perseverante, então você vai ver gente alegre, brincando. Nos campeonatos de deficientes você vai ver gente fazendo piada, chamando o outro de aleijado, sem ninguém ficar constrangido, é uma festa, a pessoa vive muito bem. Esses quatro passos que eu passo nas minha palestras servem para qualquer coisa, problema econômico, perda de pessoas da família, perda da namorada, serve pra tudo. O primeiro passo é a aceitação. O segundo, a adaptação, se ela teve uma perda econômica, vai ter que aceitar que era rica e não é mais. Próxima etapa, superação, já não pensa mais nos problemas que causaram aquela queda, daí ele parte para qualidade de vida, ou seja, vai viver bem dentro daquelas novas condições. Eu tenho uma qualidade de vida boa dentro da minha situação econômica e da minha condição social.


