Para algumas famílias, Natal sem Papai Noel, presépio, luzinha piscando e pinheirinho carregado de enfeites não tem graça. E não basta a decoração de espaços públicos e comerciais, a própria casa também tem que ser uma atração à parte.
Aos 85 anos, Maria de Deus Cruz Rocha, a Deuzita, já montou quase 80 presépios diferentes em sua casa, no Pinheirinho. O primeiro presépio, ela ganhou do pai aos sete anos. Desde então, a cada Natal Deuzita cria um presépio novo. ‘‘Quando eu era criança fazia no pé do pinheirinho. Era a coisa mais linda que tinha no mundo’’, lembra.
Hoje o presépio de Deuzita ocupa grande parte da garagem da casa dela e é uma das atrações do Natal de Curitiba. ‘‘Um faz propaganda para o outro. Criançada, adulto, não tem quem não goste’’, garante.
Por três anos consecutivos, o trabalho de Deuzita ganhou o primeiro lugar na categoria presépio natural, do concurso que era promovido pela prefeitura. Mas independente de prêmios, Deuzita se dedica aos presépios por paixão. ‘‘Você não imagina que adoração eu tenho por isso aqui’’, revela.
Moradora da Rua Elbe Pospssil, no Juvevê, que era conhecida como a ‘‘Rua do Natal’’, a paisagista Eliane Leichsenring, 55 anos, lamenta a pouca disposição dos vizinhos para manter a tradição. Ela é a única, na pequena rua sem saída, que decorou a casa para o Natal deste ano. De acordo com Eliane, a movimentação dos visitantes incomodava parte dos moradores. ‘‘As pessoas estão acostumadas com sossego o ano todo e não agüentam um mês de festa’’, observa. Ela reconhece que a instalação é trabalhosa e que os enfeites não são baratos, mas diz que não consegue deixar de fazer. ‘‘Faço tudo sozinha, ontem eu estava em cima do telhado. Todo ano eu esqueço o trabalho que dá e pelo menos a minha casa eu continuo enfeitando’’, afirma.
Outra que apaga da memória a trabalheira do ano anterior é a dona-de-casa Sueli de Medeiros Paese, 54. ‘‘É como o parto, você esquece da dor’’, compara. A casa de Sueli também fica numa rua sem saída, na Vila Isabel, e não é a única ali decorada para este Natal. Mas a produção dela é a que se destaca. São tantas lâmpadas no jardim e fachada, que a família precisou de uma ligação extra feita pela Copel para o fornecimento de energia elétrica. Por essa nova ligação, Sueli pagou à Copel R$ 695, para o período de 16 de novembro a 16 de dezembro.
Mesmo com o alto custo de manutenção, ela acredita que o principal fator de desestímulo é a falta de segurança. ‘‘A gente não quer ajuda em dinheiro, quer ajuda na segurança. Mas caso houvesse uma parceria entre Copel e prefeitura para baratear a conta, o pessoal se animaria a deixar a cidade mais bonita’’, avalia.
Na sala de Sueli, estão distribuídos quase 200 bonecos de Papai Noel. O bom velinho é representado tocando violino, bateria, cozinhando, passando roupa, aparando a barba, esquiando, andando de bicicleta, moto e patinete. ‘‘Quando vejo algum que eu não tenho, eu compro. Algumas mulheres pegam o dinheiro no final do ano e gastam no shopping, eu vou comprar Papai Noel’’, afirma.
Até as cortinas da sala de Sueli são substituídas por outras com estapas natalinas. Ela atribui tanta paixão pelos enfeites de Natal à convivência com uma tia. ‘‘Vem da minha infância. Perdi minha mãe aos 10 anos. A tia que me criou tinha esse costume. Era uma coisa muito gostosa’’, lembra.
Este é o terceiro ano que Sueli não abre sua casa à visitação pública, salvo algumas exceções. ‘‘Pessoas conhecidas a gente deixa entrar’’, garante. Nessa época, os vizinhos costumam se reunir na casa de Sueli nos finais de tarde para conversar. ‘‘Aproxima mais o pessoal, que passa o ano todo correndo’’, comenta.

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