Valdir quase foi preso junto
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de novembro de 1998
Jota Oliveira 
Quando Leon Perez caiu, o gráfico Valdir Alves de Oliveira trabalhava também na Circulação, onde despachava jornais para outras cidades e Estados, e buscava de madrugada, em suas casas, os motoristas de linha. Às vezes ele substituía o linheiro, como fez na madrugada em que a Folha foi apreendida em todo o Paraná (caso Leon Perez). Em uma caminhonete Rural Willys, Valdir levou 400 jornais para o distribuidor em Assaí. Quando começou a descarregar, policiais apresentaram-se, identificaram-se e apreenderam tudo. Queriam também apreender a caminhonete, ameaçaram me prender, mas liberaram.
O diálogo foi rápido, depois que os policiais se identificaram: - Está preso. - Quem, eu?. - Tudo. Vamos descer para a delegacia. Acabaram liberando o carro e o chofer ali mesmo. Apenas mandaram deixar o jornal na frente da barbearia que era o ponto de distribuição da Folha.
Foi um dia ruim. Além do jornal ter ficado nas mãos da polícia, na volta para Londrina a Rural pegou fogo na estrada. Valdir saiu do carro e começou a acenar, pedindo socorro. Alguns motoristas pararam, mas sugeriram que ele tirasse a camisa e tentasse apagar o fogo com ela. Era uma camisa nova; ele ignorou a sugestão. Finalmente, apareceu um motorista com extintor e o fogo foi apagado.Mário CesarLembrançaValdir hoje, na fotolitagem: Ameaçaram me prender
Quando chegou ao jornal, Valdir ficou sabendo da apreensão da Folha no Estado. Em muitas cidades, como Cianorte, o jornal chegara ao distribuidor antes da polícia; uma parte pôde circular. Mas, no dia seguinte, começaria censura prévia pela Federal na Oficina. Eles (policiais) chegavam, liam todas as matérias que o jornal pretendia publicar, embargavam aquelas que achassem inconvenientes para o governo. Às vezes tínhamos que desmanchar uma página inteira.
A censura prévia durou algum tempo, recorda Valdir Alves, que a exemplo de outros funcionnários da Folha aprendera a dirigir nos veículos do jornal. Os motoristas de linha e de reportagem, porém, eram profissionais que haviam adquirido experiência em outras empresas.
Um desses motoristas era o Tenente. Bom motorista, porém não sabia ler. Antes de vir para a Folha, Tenente dirigira um caminhão aplicador de calcário. Por isso conhecia até os carreadores do Norte do Paraná. Conhecia também a sinalização das estradas: uma placa em S indicava curvas; uma placa com ângulo mais fechado significava curva perigosa.
O problema era quando, pelos solavancos do caminho, os pacotes de jornal para entrega aos distribuidores em cada cidade da linha saíam dos lugares onde tinham sido colocados pelo Valdir e outros funcionários da Circulação, que sabiam da dificuldade do Tenente. Eles colocavam os repartes pela ordem das cidades ao longo da linha. Por exemplo: Cambé era o primeiro pacote; Rolândia o segundo. Se os pacotes ficassem fora da ordem, Tenente escolhia pelo peso ou aparência (Rolândia lê muito jornal. É esse, concluía, escolhendo um reparte maior. Podia ser o reparte de Arapongas).
A Folha teve carros de várias marcas, porém os Fuscões ficaram célebres. Eles eram envenenados com um kit de SP2, um carro esportivo da Volkswagen. Corria muito, como também ficaram os Fuscões - bons de canela. Destes, a tampa do motor era aberta em cima, para aumentar a refrigeração.
Alguns linheiros, Tenente entre eles, morreram acidentados. A maioria quando voltava das entregas, que chegavam a cobrir distâncias como Campo Grande e Foz do Iguaçu, a mais de 500 quilômetros de Londrina.
Com uma pintura característica, os Fuscões eram vistos longe na estrada. Outros motoristas com menos pressa davam passagem. Muitos queriam disputar corrida - era a glória ganhar corrida de um carro da Folha.


