Vacinas em dia
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 25 de janeiro de 2019
Amanda de Santa<br>Especial para a FOLHA 

A partir do ano letivo de 2019 passou a vigorar, em todo o Paraná, a lei estadual nº 19.534, que tornou obrigatória a apresentação de carteirinha de vacinação de alunos com idade até 18 anos, no ato da matrícula, em escolas públicas e privadas. A medida visa aumentar os índices de imunização, que estão em queda. Boatos falsos, que têm circulado na internet nos últimos anos, aliados a uma crença infundada de que algumas doenças graves e comuns da infância já foram erradicadas no Brasil, contribuíram para que muitos pais optassem por deixar de vacinar os filhos.
A médica pediatra Regina Célia Villela Lemos alerta, porém, que a vacinação é muito importante. Ela explica que as vacinas são um preparado biológico que oferece imunidade parcial ou total para determinadas doenças. Elas permitem que o corpo tenha contato com o antígeno - que pode ser o vírus atenuado da doença, em dose pequena ou mesmo morto - para o corpo detectá-lo como agressor e aprender a combatê-lo. "Quando a pessoa tiver contato com esse vírus, o corpo dela já saberá como se defender rapidamente, ao ponto de nem manifestar a doença ou manifestá-la de forma bem mais leve", explica.
Lemos esclarece que algumas vacinas são aplicadas em dose única e outras exigem reforços com o passar dos anos, para reativar a memória do organismo. A pediatra lembra que algumas vacinas podem causar reações, como febre, dores, inchaço, mal-estar. Mas isso não significa que a pessoa terá a doença. A imunização pode ser feita nos postos de saúde gratuitamente, ou em clínicas particulares.
De acordo com a médica, é imprescindível que os pais acompanhem e deixem em dia a carteirinha de acordo com o calendário nacional de vacinação. "Tudo o que está escrito a lápis corresponde à próxima vacina. O que está anotado com caneta já foi feito. Os pais precisam ficar atentos para fazer os reforços das doses", orienta. Para os mais inseguros em relação à imunização, Lemos garante que as vacinas são desenvolvidas após muitos estudos, são seguras e eficazes, e já preveem reações leves do organismo.
Quando a imunização não é feita, além de as crianças ficarem suscetíveis a uma série de doenças graves, também colocam outras pessoas em risco, como aquelas que não podem ser vacinadas, por serem alérgicas ou portadoras do vírus HIV. "Estas crianças estão isoladas no meio de outras vacinadas e, por isso, ficam seguras", explica. Para os pais que possuem dúvidas sobre a vacinação, a pediatra recomenda que conversem com o médico de confiança, profissionais de clínicas de vacinação e postos de saúde.
O MS (Ministério da Saúde) possui um número de WhatsApp - (61)99289-4640 - para receber mensagens da população com o objetivo de combater notícias falsas que circulam na internet. O site do MS também tem uma página voltada para esclarecer a veracidade ou não das informações divulgadas nas redes sociais. Outra fonte segura para consulta, segundo a médica, é o site da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), que é uma entidade científica, sem fins lucrativos, e não vinculada ao governo federal.
A pediatra lembra que, entre as vacinas obrigatórias no calendário nacional, não existem doenças já erradicadas. "Apenas contra a varíola não imunizamos mais", afirma. A médica alerta que doenças que hoje são vistas como "inofensivas", como a catapora, por exemplo, pode deixar uma criança de 8 anos quase um mês fora da escola se ela tiver complicações. Se for manifestada em adolescentes ou em gestantes, os riscos aumentam.
DECLARAÇÃO
A diretora municipal de Vigilância em Saúde de Londrina, Sônia Fernandes, diz que, para garantir o cumprimento da lei nº 19.534, as escolas municipais e estaduais passaram a exigir a apresentação de uma declaração feita pelo posto de saúde para atestar que todas as vacinas estão em dia. "Apenas a apresentação da carteirinha não demonstra se ela está atualizada ou não", justifica. Algumas escolas particulares adotaram a mesma exigência, segundo ela. Mesmo assim, Sônia afirma que alguns pais se recusam a fazer determinadas vacinas. "Não temos como impedi-los de realizar a matrícula, porque o Estatuto da Criança e do Adolescente coloca que a falta de qualquer documento não deve impedir o ingresso do aluno na escola", explica.
Mesmo sem uma punição concreta para aqueles que desrespeitarem a exigência, Sônia diz acreditar que a obrigatoriedade possibilita que os pais entrem em contato com o serviço de saúde e sejam orientados sobre a importância da imunização. "A resistência maior, hoje, é com relação à vacina do HPV, recomendada a partir dos 9 anos", conta. Para a diretora de Vigilância em Saúde, além dos boatos falsos que circulam na internet, outro fator que vem contribuindo para a queda na vacinação é o fato de algumas doenças não estarem circulando.
"O fato de elas não estarem visíveis desmotiva", opina. O comportamento da população muda, porém, quando são divulgadas notícias de surtos, como aconteceu com a febre amarela e o sarampo. "Aí, as unidades de saúde lotam", aponta. Outra dificuldade, segundo Sônia, é que alguns médicos, às vezes desatualizados, recomendam pela não vacinação. "Muitas vezes, a unidade básica de saúde alerta sobre a imunização e o pediatra do convênio diz que não precisa vacinar", lamenta.
CONSCIENTIZAÇÃO
No Colégio Interativa, os pais de alunos são obrigados a apresentar a declaração de vacinação ou a carteirinha para garantir a matrícula dos filhos. A gestora de relações institucionais da escola, Mônica Gisele Custódio, diz que campanhas de conscientização sobre o tema são realizadas e o objetivo é intensificar esse trabalho em 2019. "A lei nos traz mais segurança, entendemos a importância da vacinação", afirma.
A diretora da St. James' International School, Márcia Kobayashi, diz que a carteira de vacinação sempre esteve entre os documentos exigidos pela escola, desde a sua fundação, há 21 anos. "Nosso regimento escolar contempla a obrigatoriedade da apresentação de uma cópia da carteira de vacinação no ato da matrícula. Fico contente que agora isso virou lei", afirma. Ela conta que nunca enfrentou resistência dos pais em relação à exigência.


