Uso de tecnologias nas escolas ainda é precário


Simoni SarisReportagem Local
Simoni SarisReportagem Local
Projetos Conectados 2.0 e Seed Lab são os atuais programas do Paraná visando ao uso das tecnologias digitais nas escolas da rede estadual
Projetos Conectados 2.0 e Seed Lab são os atuais programas do Paraná visando ao uso das tecnologias digitais nas escolas da rede estadual | Shutterstock



A grande quantidade e a facilidade de acesso às tecnologias digitais na atualidade permitem que o aprendizado ocorra em qualquer tempo e lugar e de múltiplas formas, mas esses recursos ainda estão fora do alcance de uma grande parcela da população mundial, especialmente nos países em desenvolvimento. Um estudo organizado pelo Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional) mostra que o Brasil tem a segunda pior conectividade nas escolas entre os países que participaram do levantamento, que usou como base os dados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) de 2015. Segundo o estudo, 28,3% dos estudantes brasileiros afirmaram ter acesso a computadores conectados à internet nas escolas. O Brasil fica à frente apenas da República Dominicana, com uma porcentagem de 28,1%. A média de conexão dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) é de 55,9%.

O Pisa baseia-se em questionários aplicados a estudantes nos quais eles respondem a perguntas sobre a existência e o uso de computadores nas escolas, além do acesso à internet. Entre os alunos avaliados, 20,19% responderam que a escola possui o equipamento, mas eles não o utilizam. Outros 28,69% afirmaram usar o computador e 26,48% responderam que a escola não tem o equipamento.

Entre os estudantes que costumam acessar a internet, o estudo mostra que a rede é acessada mais fora do que dentro do ambiente escolar. No Brasil, 37,65% dos estudantes dizem que não usam a internet na escola. Quando analisada a conexão sem fio, a porcentagem de estudantes brasileiros que afirma usá-la na escola é de 29,21%, índice que coloca o País na quinta menor colocação no ranking entre os analisados.

O Pisa avalia o conhecimento em matemática, português e ciências e é aplicado a estudantes de 15 anos de idade dos 35 países-membros da OCDE e 35 nações parceiras da organização, entre elas o Brasil. Os dados do estudo mais recente, feito em 2015, referem-se a 540 mil estudantes que, por amostragem, representam 29 milhões de estudantes. Entre os alunos brasileiros, participaram da avaliação 23.141 adolescentes de 841 instituições de ensino, segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).

As escolas da rede estadual no Paraná foram atendidas por dois projetos, o Paraná Digital, que teve duas etapas, em 2005 e 2008, e o ProInfo (Programa Nacional de Tecnologia Educacional), do governo federal, que começou em 1997 e até 2013 colaborou para equipar os laboratórios de informática e viabilizou a conexão à internet nas escolas. Segundo a Seed (Secretaria Estadual de Educação), 70% das 2.140 escolas da rede no Estado têm computadores para uso dos alunos, mas há cinco anos não recebem novos equipamentos. "É um parque bastante sucateado", reconhece o coordenador do Núcleo de Informática da Seed, Cláudio Oliveira. "Além de não ter mais nenhum equipamento dentro do prazo de garantia, é difícil encontrar peças para reposição."

A velocidade da conexão também não é a mais adequada em 25% das escolas, localizadas em zonas rurais e tribos indígenas, onde não há malha de fibra ótica próxima e o custo para expandir a rede é muito alto. "Setenta por cento das escolas são atendidas pela conexão de fibra ótica da Copel. As outras 25% são conexão via satélite. Ainda não é uma solução adequada", disse o coordenador.

NOVOS PROJETOS
Atualmente, o Paraná discute o uso das tecnologias digitais nas escolas da rede estadual por meio de dois novos projetos, o Conectados 2.0 e o Seed Lab, ambos da Seed.

O diretor de Políticas Educacionais da Seed, Eziquiel Menta, destaca que as discussões sobre o uso das tecnologias digitais nas escolas não devem se restringir à infraestrutura de equipamento e devem incluir a formação que irá viabilizar a construção dos planos de educação. "Não dá para equipar as escolas se não se sabe onde quer chegar. Depende de fazer a reflexão, e é uma reflexão coletiva da sociedade, não só para experts em tecnologia", defendeu. "A gente ainda está no primórdio de uma política, ainda tem muito a avançar, mas é com coragem que estamos construindo isso com as escolas."

Menta enfatiza a necessidade de se reconhecer que a discussão do tema passa pela forma como a tecnologia está inserida na sociedade, o modo de utilizar a tecnologia como ferramenta de ensino e, principalmente, como as tecnologias digitais podem contribuir para que a comunidade escolar passe a empreender, a partir do despertar da curiosidade e da inventividade. "A gente ainda vê a tecnologia sendo usada como um livro. Não é usar a tecnologia para apertar botão", comparou o diretor. "As políticas públicas, de uma maneira geral, preveem a distribuição do equipamento, mas não preveem a constituição do pertencimento, do conhecimento coletivo, não questionam para que vai ser utilizado o computador."

Conectados 2.0 avança em três escolas de Londrina

Em Londrina, o projeto Conectados 2.0 se desenvolveu em três escolas em 2016, ainda como projeto piloto. As escolas estaduais Antônio de Moraes Barros, no jardim Bandeirantes (zona oeste), Professora Maria José Balzanelo Aguilera, no conjunto Cafezal 4 (zona sul), e Benedita Rosa Rezende, no jardim Guararapes (zona leste) foram as primeiras selecionadas para receber equipamentos, além de formação pedagógica para a direção, equipe pedagógica e professores.

A equipe da CRTE (Coordenação Regional da Tecnologia na Educação), do NRE (Núcleo Regional de Educação) também desenvolveu um curso de formação próprio baseado nas orientações da Seed (Secretaria Estadual de Educação). No curso, foram feitas discussões sobre a aprendizagem no mundo contemporâneo, com reflexões sobre a facilidade de conexão à internet e mobilidade, e reuniões quinzenais com os professores nas quais eram abordados temas mais práticos, como segurança e armazenamento em nuvem. "É um projeto voltado para o uso pedagógico da tecnologia. Não adianta equipar a escola com tecnologia sem alterar a metodologia", opinou a coordenadora do CRTE, Elisabete Alves Soares.

Em 2017 o projeto se ampliou e foram incluídas outras 24 escolas na área de abrangência do NRE, sendo 15 de Londrina. Os professores participaram de cursos de formação pedagógica e neste ano devem ser distribuídos os equipamentos conforme a necessidade e capacidades de cada escola. Mesmo as equipes das escolas que não participam do projeto Conectados 2.0 passaram por cursos de formação por meio do Registro de Classe On-Line, implantado entre 2015 e 2016 em 2.100 escolas da rede estadual paranaense. No ano passado, foram 55 escolas e neste ano outras 34 devem ter acesso ao conteúdo. "O Registro de Classe On-Line vai quebrando barreiras. Ele não é opcional, quando é implementado, a escola precisa se apropriar dele. O registro melhora o desempenho em frequência, controle de notas e de conteúdo e o professor precisa usar."


Projetos estimulam tecnologias digitais

O projeto Conectados 2.0 foi traçado dentro do Plano de Metas do Governo do Estado do Paraná (2015-2018) e é um desdobramento do Projeto Conectados, piloto lançado em 2015-2016. O objetivo é colaborar e ampliar a discussão e o uso de tecnologias educacionais no ambiente escolar. As experiências, além de mostrar a necessidade de renovação dos equipamentos nas escolas, também revelaram as fragilidades que atrasam o avanço da tecnologia digital pelos professores e gestores.

Um dos projetos para estimular o uso das tecnologias digitais nas escolas, o Conectados 2.0, começou em 2016 com 90 estabelecimentos de ensino e uma sobra de tablets e outros pequenos equipamentos disponíveis na Seed, por falta de recursos previstos na LOA (Lei de Diretrizes Orçamentárias). Em 2017, a secretaria conseguiu um recurso de R$ 14 milhões do próprio governo do Estado para investir no projeto. Com a ampliação, foram selecionadas 500 escolas da rede, que receberam não só equipamentos, mas também a formação continuada. Os critérios de seleção foram escolas na área rural, de período integral e aquelas em estágios iniciais ou mais avançados no uso de tecnologia. As escolas que quiseram aderir ao projeto assumiram o compromisso de disponibilizar 25% do seu quadro de pessoal e ter um projeto de uso da tecnologia na escola.

Entre as 500 escolas selecionadas, 38 são de Curitiba e 27 estão na área de abrangência do Núcleo Regional de Educação de Londrina, sendo 15 em Londrina. Neste ano, o projeto deve ser ampliado para mais 500 escolas no Estado.

O Seed Lab foi desenvolvido pela DPTE (Diretoria de Políticas e Tecnologias Educacionais) da Seed e selecionado pela Fundação Lemann e pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) por meio do Desafio Aprendizagem Criativa Brasil 2017. Ele prevê a promoção do desenvolvimento de tecnologias pelos próprios alunos por meio da aprendizagem criativa, estimulando a inovação, as novas experiências, a inventividade e o compartilhamento das produções criadas por alunos, professores e comunidade.

O projeto ainda é tratado como conceitual. Foi construído um FabLab dentro da Seed, com ferramentas que permitem criar qualquer produto. O laboratório dispõe de impressora 3D, cortadora a laser e outros equipamentos usados em atividades de robótica, programação, construção de modelos e protótipos, entre outras possibilidades. Segundo o diretor de Políticas Educacionais da Seed, Eziquiel Menta, estão sendo criados kits para entregar às escolas e a secretaria oferece oficinas para alunos e professores. "A gente já conseguiu plantar essa semente em 300 professores para criar espaços criativos dentro das escolas. Não quero ficar só nas oficinas, mas não tenho orçamento para levar impressoras 3D para todas as escolas", disse Menta.

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