Nascido em Piraí do Sul, Túlio Vargas, presidente da Academia Paranaense de Letras, chegou em Curitiba no início da década de 40 e observa que desde então a cidade mudou bastante. ''O curitibano tradicional é muito introvertido, tem um excesso de modéstia. Só passa a ser comunicativo mesmo no instante em que adquire confiança no seu interlocutor'', observa.
A mudança, segundo Vargas, se deu após a chegada de pessoas de outros estados com a industrialização da cidade. ''Os que mantêm a tradição é minoria inexpressiva. Curitiba se tornou uma cidade mais aberta, universalista. Hoje é uma cidade cosmopolita'', afirma.
Por outro lado, o neurologista, psicoterapeuta e professor de propedêutica da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Mário Negrão, atribui à urbanização o distanciamento entre os moradores de Curitiba. Segundo ele, a cidade segue a tendência de tribalidade observada em grandes cidades como Paris e Londres. ''As pessoas não se relacionam mais pela distância mas pelos interesses comuns. Cria-se um comportamento underground. A pessoa sai de casa já sabendo o que vai fazer. Os laços com a família e os colegas de trabalho são mais fortes que com quem mora ao lado.''
De acordo com Negrão, a auto-suficiência de cada um também é diretamente proporcional à tendência ao isolamento. ''Os menos favorecidos buscam a suficiência através de amizades porque essas pessoas não se sentem tão auto-sificientes'', explica. ''É o isolamento que o dinheiro traz. Quando você não precisa de ninguém, acaba acordando sozinho. O pobre está sempre precisando de alguém. A base da suas relações se estabelece na ajuda mútua'', completa.
Ainda segundo o psicoterapeuta, é uma tarefa difícil ser vizinho porque trata-se de uma convivência forçada. ''Vizinho é igual irmão, você não escolhe mas tem que gostar do cara senão sua vida vira um inferno'', brinca. O isolamento seria, então, uma forma de suportar a pouca distância que a concentração urbana impõe. ''A qualidade de uma relação é diretamente proporcional à harmonia que a distância entre as pessoas produz'', conclui. (D.R.)

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