Unidos pela nostalgia e pelo transporte
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terça-feira, 05 de maio de 2009
Flora Guedes<br> Equipe da Folha 
Uma das potências mundiais do automobilismo, a Renault foi além do mecânico e da tecnologia. A empresa, pouco depois que foi fundada, em 1902, decidiu lançar um olhar artístico sobre sua produção industrial. Mas não apenas com objetivo publicitário. A intenção era também registrar o cotidiano da indústria e o trabalho dos funcionários seja pelos traços na tela, seja pela fotografia. Foi por essa postura vanguardista que a Renault trouxe para o seu quadro de funcionários o fotógrafo Robert Doisneau, na época, com 22 anos e ainda de talento desconhecido.
Contratado como fotógrafo industrial, na sede em Billancourt, Doisneau registrou imagens das oficinas, dos veículos e das peças da Renault. Testes com carros na pista e na lama. Poses de mulheres elegantes nos modelos a serem lançados. O cotidiano dos operários foi uma das partes que mais lhe interessou: a linha de produção, os aprendizes (Escola Profissional de Aprendizagem Renault), as oficinas de montagem, usinagem, forja e estamparia, a hora do almoço no refeitório, as cozinheiras, a enfermaria, o vestiário, o funcionário da limpeza ou mesmo de um funcionário batendo o cartão ponto.
Doisneau aproveitou a luz natural do bosque para fotografar também a primeira oficina de Louis Renault, em Boulogne-Billancourt. Demitido em 1939, devido a "atrasos repetidos", ele é chamado pela empresa como freelancer, em 1946, para fazer uma reportagem que seria publicada na obra "Lautomobile de France" e outros trabalhos publicitários da marca até 1955. Dessa forma, Doisneau registrou a história da Renault. Registro que só se valorizou pelo profissional que ele tornou-se mais tarde.
No livro da exposição, o presidente da Renault do Brasil e diretor geral da Renault Mercosul, Jean-Michel Janilier, lembra das fotografias publicitárias "cheias de charme e sedução" que Robert Doisneau fez, como as do Dauphine em 1956, "charmoso modelo que viria a tornar-se o primeiro sucesso comercial da Renault no Brasil, nos anos 1960, sob o nome de Gordini", escreveu Janilier que destaca a sensibilidade e elegância do fotógrafo na compreensão do mundo automobilístico. "A grande força da cobertura fotográfica de Doisneau está no fato de que ela transcende os limites do olhar", definiu.
Ambos os períodos do fotógrafo na empresa estão retratados em 106 fotografias que compõe a exposição "A Renault de Doisneau", em cartaz até o dia 14 de junho, na Casa Andrade Muricy, com curadoria da francesa Ann Hindry. É a primeira vez que a mostra é trazida ao Brasil, daqui segue para São Paulo, apenas. Para quem só relaciona o fotógrafo à imagem ícone e romântica do "Beijo do Hôtel de Ville", tirada em frente a Prefeitura de Paris, em 1950, tem oportunidade única de conhecer parte do trabalho humanista e emocionante de Doisneau. E onde tudo começou para esse gênio da fotografia.


