Rosiane Correia de Freitas
Equipe Folha
De longe, parece um grupo de amigos revivendo as alegrias do passado. De fato, muitos são amigos. Apesar das diferenças de idade, de formação, foram unidos pela ideologia e pela marca permanente da tortura. Mas quando se encontram, o tom da conversa não é de tristeza, e sim de revigorada esperança no futuro. Assim são os ex-presos políticos que vão contar suas histórias para o projeto Depoimentos para a História, uma iniciativa do Grupo Tortura Nunca Mais (GTNM) Paraná em parceria com o Arquivo Público
do Paraná.
  Em 1991, quando o então governador Roberto Requião determinou a abertura dos arquivos do extinto Departamento de Ordem e Política Social (DOPS) no Paraná, uma parte importante da história do estado e da ditadura foi contada. Milhares de fichas de pessoas investigadas estão disponíveis para consulta pública desde então. ‘‘Mas se trata de uma história contada pelo Estado, pela ditadura’’, aponta Narciso Pires de Oliveira, do GTNM. Parte desses retalhos está exposta no Arquivo Público do Paraná em banners criados pelo GTNM com fotos e fichas retiradas dos arquivos
do DOPS.
  No entanto a versão da história dos presos, perseguidos e torturados, não se perdeu. ‘‘Cada pessoa aqui é um arquivo-vivo da longa noite escura que vivemos’’, explica Oliveira.
  É para permitir que esses relatos não se percam que o grupo decidiu promover o registro do passado através das palavras de quem o viveu. Serão coletados depoimentos em áudio e vídeo de quem tiver histórias para contar do período que vai de 1964 a 1985. ‘‘Esses relatos serão transcritos e disponibilizados ao público, formando um imenso banco de dados’’, adianta Daysi Lucia Rams de Andrade, diretora do Arquivo Público.
  Serão depoimentos como o do próprio Oliveira. Em 1970 a célula do Partido Operário Comunista (POC) da qual ele era parte foi desmantelada e muitos militantes, presos. Oliveira teve que fugir de Curitiba para escapar da prisão. Foi se esconder em Apucarana, onde comprou um carro para voltar à capital e resgatar outros colegas. ‘‘Mas eu não sabia dirigir, então acabei destruindo o carro na Serra do Cadeado’’, conta. Sem condições de continuar escondido em Apucarana, Oliveira seguiu para Londrina, onde foi abrigado pelo jornalista da FOLHA DE LONDRINA, Edilson Leal.
  ‘‘A mulher dele, Degmar, me emprestou um Fusquinha que usei para ir a Curitiba resgatar militantes do partido. Ela ia junto comigo, me ensinando. Foi assim que aprendi a dirigir’’, lembra. Pouco depois Oliveira seguiu para São Paulo, onde se escondeu na casa dos pais de outro amigo, Luis Cordoni. ‘‘No ano passado é que descobri o nome de outro rapaz que me ajudou na fuga: Arnaldo Bertoni’’, revela. ‘‘Naquela época a gente não queria saber o nome de ninguém’’, explica.
  Os homens e mulheres que guardam na mente e no corpo as marcas da ditadura mantém intactas algumas convicções do passado. E ao som da Internacional Socialista, interpretada no violino pelo ex-preso político Ozires Boscardin Pinto e pelo músico Arthur Leton, ficam todos em pé em homenagem aos ideiais pelos quais se sacrificaram. A música traz muitas lembranças à tona. ‘‘Cada vez que um companheiro era libertado do presídio do Ahú, os presos cantavam em coro a Internacional Socialista’’, recorda Oliveira.
  Já o jornalista Walmir Marcellino, 78 anos, lembra dos empregos na Assembléia Legislativa e em jornais da capital que perdeu por sua atuação junto à Ação Popular. Durante a ditadura militar, Marcellino foi preso quatro vezes. A última, em 1978, por causa de seu envolvimento com duas escolas infantis: a Oficina e a Oca, nas quais seu filho estudou. Pais e professores foram acusados pela polícia de ensinar comunismo para crianças por causa dos métodos ‘‘alternativos’’
de ensino.

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