Umbará dos tijolos
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quarta-feira, 27 de maio de 2009
Rafael Urban<br> Equipe da Folha 
A Cerâmica Arnoldo Orso, no Umbará, representa o encontro do velho com o novo. Enquanto três caieiras, fornos antigos, abertos, seguem em funcionamento, um forno-túnel de 93 metros, em construção, permitirá que se dobre a produção com o mesmo número de funcionários. A produção de 250 mil tijolos de seis furos, nove de largura, 14 de altura e 19 centímetros de comprimento, por oito pessoas, chegará, na expectativa do dono, de 48 anos, que divide o seu nome com o do negócio, a 500 mil mês, com possibilidade de ampliar para um milhão.
O Umbará concentra 40% da produção de cerâmica vermelha da cidade (majoritariamente tijolos), por suas 42 olarias. No investimento de um milhão de reais, Orso instalou um galpão pré-moldado, o forno-túnel e um secador, um ganho de velocidade em relação à secagem natural. "E o novo forno tem uma queima mais homogênea, reduz desperdício de material e é contínua."
Diferente das caieiras, em que a produção é intermitente (esfria, esvazia, enche etc), um sistema hidráulico com carrinhos e trilhos não para de funcionar. Com a curva de queima mais controlada, diminuem-se as irregularidades (tijolos com marcas brancas ou vermelhas), o resultado é um produto mais competitivo no mercado.
A Santa Bárbara, a poucos quilômetros dali, tem perfil bastante diverso. Na propriedade em que vivem e trabalham quatro irmãos, são produzidos 40 mil tijolos no mês. A olaria é uma das poucas da região, tal como a Santa Gema, que ainda mantém um ar rústico, próprio da época de sua fundação - feita por seu avô na década de 1950. A caieira, ou forno caipira, é a opção, ainda que, com a chegada da nova geração, mudanças estejam a caminho.
Tal como nos conta Carlos Alberto Rossi Borguezani, 42, através da sugestão do filho mais velho, de 17 anos, compraram um moedor de pedras, o que facilitou a vida um bocado. Mudança simples, e ainda mas fundamental, foi a caçamba que adquiriram em novembro por R$ 2 mil e que foi acoplada ao caminhão V8 de 1968. E, agora, não precisam mais descarregar com pás a matéria prima (argila) - ainda que os carrinhos de mão continuem sendo usados.
Para a família de Carlos, a manutenção de um negócio familiar, ainda que simples, está na opção de não ser empregado. "Hoje é empilhadeira, isso aqui ficou ultrapassado", afirma. Sobre modernizar, ele é enfático. "Todo mundo quer, mas precisa de muito dinheiro." "Nos forçamos a fazer artesanal e enquanto não tiver maquinário é tudo no muque."
Bonato, Pilato, Nichele, Wacheski, Bobato, Micheleto. São poucas as famílias por trás das olarias do Umbará. É o caso dos Wosniak, donos de três delas. Carlos, da Santa Bárbara, já trabalhou para o primo Sergio Clever Wosniak, 46, proprietário da Tijolajes, uma das maiores da região. "Jesus, José e Maria, com as vossas participação (sic) vai bem a vossa olaria", aponta um cartaz ao lado das imagens de Jesus e Maria, logo acima do forno-túnel hidráulico. Com dez funcionários, a empresa de Wosniak produz 300 mil blocos estruturais por mês - produção que, se equiparada a tijolos, alcançaria um milhão.
"Foi meu pai que começou. A gente era guapeca, mas já trabalhava", recorda Wosniak, que hoje tem a companhia dos filhos Hector, 15, e Wagner, 19. Quando criança, Wosniak tinha ao lado dos irmãos uma função específica na olaria: limpar o esterco dos cavalos enquanto eles amassavam a argila. "Eles iam rodando e cagando e nosso serviço era brincar de, com a pá, tirar o esterco", explica.
Agora, ele quer diversificar o negócio e pretende construir 14 sobrados. "Vou mexer com construção. O maquinário e o bloco já tenho", diz.
Erva mate
Outro exemplo de empresa familiar é a Olaria Dois Irmãos. Iniciada em fevereiro de 1949, com o nome do fundador, José Bonato Filho, hoje é administrada por seu bisneto, o engenheiro civil Fernando Rodrigo Bonato, 31. "É bom que está em casa", conta Fernando, que mora, tal como seu pai, no mesmo terreno da empresa. Do outro lado da rua, fica a olaria de seu tio-avô e na mesma quadra uma terceira, que pertence a um primo. A poucas quadras tem uma quarta, também da família.
Em uma das paredes do escritório, uma foto da olaria em 1985. Da imagem, segundo nos conta Fernando, não restou nem estrutura, nem maquinário, todo modificado desde então. Como forno, eles utilizam um modelo intermitente - ainda que diferente de caieira, por ser fechado.
Seu pai é o atual presidente do Sindicato das Indústrias de Olarias e Cerâmicas para Construção do Estado do Paraná (Sindicer-PR). José Raimundo Bonato, 54, lembra que a olaria começou como uma alternativa à erva mate. "Funcionava assim: meu avô e os demais se preocuparam em gerar emprego para a família", diz. "Ele, como todo mundo, tinha saído do ciclo da barricaria." Com a queda das exportações de erva mate, boa parte das famílias da região viu na olaria uma alternativa à crise.
José ainda guarda o livro que registrou as primeiras vendas do empreendimento, de uma época em que a cobrança fiscal era feita com selos, devidamente colados no volume. Sua empresa de 12 funcionários produz, hoje, 250 mil peças mês. São tijolos de dois, quatro, seis, 21 furos... Além de outras peças de cerâmica vermelha, como uma garrafeira para adega. Os seus principais clientes são lojistas.
O sindicato presidido por José organiza de hoje a domingo a Feira de Fornecedores para a Indústria Cerâmica e Mineral
(Expocer 2009), no salão de eventos da igreja do bairro e promoverá visitas a olarias da região.


