Quem viveu a infância e a adolescência na Curitiba dos anos 60 e 70 tem boas recordações de uma área de lazer, localizada no histórico bairro do Umbará, na região sul, onde era possível nadar e pescar em águas cristalinas. De tão limpo, o lugar passou a ser chamado de Lago Azul. Era considerado a ‘‘praia curitibana’’. Em torno do lago, muito verde e árvores sob as quais as famílias costumavam organizar piqueniques.
  A propriedade de Ângelo Segalla, que como a maioria dos moradores do Umbará era descendente de italianos, recebia centenas de pessoas durante os finais de semana. Para usufruir das atrações do parque pagava-se ingresso. ‘‘Mas não era caro, equivalia a uns dez reais de hoje’’, recorda-se Marcos Amâncio, antigo freqüentador do Lago Azul,
hoje comerciante e presidente
do Conselho de Segurança
do bairro.
  A área de 126 mil metros quadrados, avaliada em
R$ 1,1 milhão, acaba de ser desapropriada pela prefeitura
de Curitiba, que pretende transformá-la no décimo-nono parque público da capital. Segundo o secretário municipal de Meio Ambiente, José Andreguetto, o crédito adicional no orçamento para aquisição do local já foi aprovado pela Câmara Municipal e até dezembro deverá ser lançado
o edital de licitação. O investimento total da prefeitura na reformulação do lugar será
de R$ 3,3 milhões.
   ‘‘O projeto está pronto e queremos concluí-lo, no mais tardar, no início do segundo semestre de 2008. É uma reivindicação antiga da população e um ícone para Curitiba’’, afirma Andreguetto, que também freqüentava o
Lago Azul nos áureos tempos. ‘‘Naquela época, só havia naquela região a piscina do Alemão, no Boqueirão, e o
Lago Azul. Era a nossa praia’’, recorda-se. O ex-prefeito Cássio Taniguchi e o governador Roberto Requião também testemunharam, na juventude, junto com as famílias o
ambiente agradável da
área de lazer do Umbará.
  ‘‘O Requião pedia polenta com café. Antigamente, isso aqui era muito gostoso’’, lembra Angelina Zonta, 70 anos, filha de Ângelo Segalla, que vive até hoje na casa onde nasceu. Ela conta que, a idéia de transformar em área de lazer a propriedade em que funcionava o moinho de milho de onde a família tirava o sustento, surgiu quando o pai dela foi procurado por um empreendedor de Santa Catarina. ‘‘Ele viu o lago e perguntou se podia trazer alguns peixes para colocar ali. Meu pai deixou e assim foi começando a vir gente. Esse homem tinha muitas idéias, mas nenhum dinheiro. Depois, meu pai teve de arcar com tudo’’, diz ela, que, viúva por duas vezes, hoje compartilha a propriedade com três filhos, noras e nove netos.
  A notícia de que o lugar será adquirido pela prefeitura e vai se tornar o primeiro parque da região sul acabou atraindo curiosos à porta de dona Angelina. Ela, que é uma das mais conhecidas representantes da comunidade, não quer mais aparecer publicamente. ‘‘Eu conto tudo, mas não quero nada de fotos. Meus filhos já brigaram comigo por causa disso.
Dizem que estou falando demais’’, justifica.
  Embora esteja esperançosa com a iniciativa do poder público municipal, dona Angelina diz que só vai acreditar mesmo quando as obras começarem. ‘‘Já houve muita promessa. Vamos ver se desta vez sai’’, comenta. Deixar o lugar onde viveu tantas histórias não intimida a aposentada. ‘‘Quero me mudar para um lugar menor. Só faço questão de que preservem a memória do meu pai’’, garante. A principal dúvida é quanto à solução do problema que condenou a área de lazer à extinção: o despejo de esgoto sem tratamento na bacia do
Rio Ponta Grossa, à qual pertence o lago.
  ‘‘Nos dias de calor, o cheiro fica insuportável. Precisamos fechar todas as janelas’’, afirma Angelina, mostrando fotos antigas em que o lago aparece cobertura por espuma branca, outro indicativo de poluição. O problema piorou nos últimos anos, com a construção de novas residências na região, argumenta Marcos Amâncio. ‘‘Se o rio não for despoluído, o parque ficará inviável’’, acrescenta.
  A secretaria de Meio Ambiente, entretanto, garante que já existe entendimento com a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) para que as obras de despoluição sejam realizadas. ‘‘Enviamos ofício à Sanepar e a empresa nos respondeu dizendo que as obras estão contratadas para o exercício de 2008’’, informou José Andreguetto. Ele reconheceu, porém, que o parque poderá ficar pronto
antes de o lago estar limpo. ‘‘Vamos pedir o cronograma (das obras da Sanepar).
Para nós, o quanto antes terminar, melhor’’.

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