Desde 2006 esperando por um coração, o tratorista aposentado Marinho Alves de Souza, 43 anos, morador em Porecatu (85 km ao norte de Londrina), é um dos mais antigos da fila quando se considera apenas a regional de Londrina da Central de Transplantes. Ansioso, ele vê o tempo passar devagar enquanto aguarda pela sua vez de ganhar uma vida nova.
Tomando oito remédios diferentes e gastando mais de R$ 300,00 por mês com medicamentos, ele se apóia na esperança de encontrar um doador. Enquanto isso, faz um verdadeiro revezamento entre os hospitais e a sua casa.
A doença de Marinho, na linguagem dos médicos, tem o nome de cardiomiopatia dilatada, ou seja, é o mesmo problema de Fabiano, o mais novo transplantado da região. No caso do tratorista, o que pode ter contribuído para que seu coração ficasse inchado e flácido é a hipertensão arterial, ou ''pressão alta'', algo que é mais comum às pessoas da raça negra. ''Sempre fui hipertenso, mas nunca tinha sentido nada'', diz Marinho.
De acordo com o cirurgião cardíaco Rafael Santoro, em uma classificação que vai de um a quatro, a cardiopatia do tratorista está na classe três, caminhando para a quatro. ''Ele tem sintomas aos mínimos esforços'', relata o médico.
A falta de ar que hoje tanto o incomoda, Marinho sentiu pela primeira vez aos 40 anos, quando foi dar uma volta pelo bairro onde mora depois de um dia de serviço. Dali em diante sua vida nunca mais foi a mesma. Logo veio a aposentadoria e a notícia de que ele precisaria de um transplante.
''Foi um grande sofrimento saber que não poderia mais trabalhar nem fazer esforços'' recorda. ''Um dos cardiologistas que nos atendeu disse que ele só teria dois meses de vida, pois não havia o que fazer. Isso já faz mais de dois anos e continuamos firmes'', complementa a esposa de Marinho, Lúcia dos Santos Souza. Ela é a responsável por vigiar para que o maridão tome corretamente todos os remédios e também arrumou um emprego na colheita da cana-de-açúcar para ajudar nas despesas da casa.
Os três filhos do casal, Anderson, 20, Andressa, 15, e André Luiz,7, também transmitem uma força grandiosa para que a esperança se renove a cada dia. ''O caçula diz que vai ser médico para fazer o meu transplante'', relata Marinho.
''Sei que há muita ignorância em relação ao transplante de órgãos. Já passei por isso. Em 1994, perdi um irmão. Quando foi diagnosticada a morte encefálica, não aceitamos doar os órgãos dele. Por isso, gostaria que as pessoas tivessem mais consciência e conhecimento sobre esse assunto. Uma vida que se encerra pode salvar outra'', finaliza Lúcia dos Santos Souza.(W.S.)

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