De acordo com uma estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS), em tempos de paz, 10% da população de qualquer país é composta por pessoas portadoras de algum tipo de deficiência (5% mental, 2% física, 1,5% auditiva, 0,5% visual e 1% múltipla). Seguindo esse cálculo, Curitiba teria algo em torno de 150 mil portadores de necessidades especiais.
  Para facilitar a locomoção dessas pessoas, principalmente daquelas com dificuldades motoras, foram criadas vagas especiais para estacionamento de veículos, geralmente próximas a rampas de acesso. Existem 30 delas espalhadas pela região central da cidade (oito possuem a obrigatoriedade do uso do cartão do EstaR), criadas pelo poder público. Além dessas, existem vagas também em supermercados, shoppings e outros estabelecimentos que são de responsabilidade de particulares.
  Um leitor incauto poderia imaginar que esse número limitado de vagas (comportariam apenas 0,02% do total de portadores de necessidades especiais da capital) poderia ser o maior problema enfrentado por essa parcela da população na hora de estacionar seus veículos. Ledo engano. Não bastasse serem pouco numerosas, essas vagas na maioria das vezes são ocupadas de forma indevida por outras pessoas, que usam a desculpa da pressa e da desatenção para justificar o desrespeito.
  Foi o que a reportagem da FOLHA constatou durante uma rápida incursão pelas ruas curitibanas. Em pouco mais de uma hora, observamos três motoristas estacionando irregularmente em uma vaga reservada a portadores de necessidades especiais. Os flagrantes ocorreram em um local onde se imaginava que os freqüentadores tivessem o espírito de cidadania mais desenvolvido, a Reitoria da Universidade Federal do Paraná (UFPR), no centro da cidade.
  Mesmo localizada ao lado de uma rampa de acesso e sinalizada por uma placa, Alberto dos Santos afirma que não sabia da existência da vaga exclusiva. Além da desatenção, ele alega em sua defesa que parou rapidamente no local, apenas para fazer umas ‘‘comprinhas’’ em um supermercado próximo. Infelizmente para ele a reportagem da FOLHA aguardou por mais de 60 minutos sua chegada no local. ‘‘Da próxima vez vou prestar mais atenção’’, garante o motorista, que reconhece que caso um cadeirante tivesse que desembarcar por ali ficaria numa situação complicada.
  Sai o carro de Alberto e segundos depois entra o carro de Pedro de Souza, 23 anos. Ao ser abordado pela reportagem, ele rapidamente tira o carro da vaga e estaciona em outra mais à frente. Sua alegação é a mesma do outro motorista: não prestou atenção na sinalização. No entanto, ao ser questionado se teria cometido o mesmo engano em frente a uma placa do EstaR, ele reconhece que não.
  O terceiro carro a estacionar indevidamente na vaga era conduzido por uma jovem que não se identificou. Irritada, ela argumentou com a equipe que não havia tempo para procurar outra vaga antes do início da sua aula na universidade e deixou o carro ali mesmo.
  O descaso e a falta de consideração com os portadores de necessidades especiais talvez se deva à falta de punições mais severas para os motoristas. Quem levanta essa sugestão é Pedro Souza, o mesmo que afirmou não ter notado a placa avisando sobre a vaga exclusiva. ‘‘Tem que mexer no bolso do pessoal’’, sugere.
  A infração para quem ocupa indevidamente uma vaga para deficientes tem o mesmo peso de estacionar em local proibido, três pontos na carteira e multa de R$ 53,00. De acordo com a assessoria da Diretoria de Trânsito de Curitiba (Diretran), a fiscalização dessas vagas é feita por equipes volantes, que nem sempre conseguem evitar todos os abusos. Dessa forma, é preciso depender do bom senso dos motoristas.

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