Uma saca rende mais de 15 mil xícaras
Com tantas opções de consumo e com uma cadeia produtiva tão grande, fica difícil definir onde, de fato, o café passa pela maior valorização. A certeza é de que, desde que a saca do produto beneficiado sai das mãos do produtor até o momento em que a xícara é colocada na frente do consumidor, o preço sofre uma variação média de 2.500%, englobando desde custos de produção e impostos até os lucros de cada etapa da cadeia.
De acordo com o corretor Marcos Aurélio Bacceti, a saca de café duro, tipo 6, com xícara riada (café plantado com distância de 40 centímetros entre os pés), a mais comum no mercado, é vendida pelo produtor às torrefações por R$ 175,00, em média. ''Nesta etapa, já devem ser incluídos no preço o lucro do produtor e os custos operacionais'', explica.
Torrados e moídos, os 60 quilos de café rendem 48 quilos de pó, industrializados pelas torrefações. ''Nesta parte do processo, mais uma vez são incluídos custos operacionais, lucros, impostos federais, estaduais e municipais, custos com transporte e embalagem'', enumera o corretor.
Os supermercados, por sua vez, compram o produto com uma variação muito grande de preços. Segundo o diretor de compras de uma grande rede supermercadista de Londrina, Ademar Vedoato, é possível pagar desde R$ 5,57 até R$ 7,90 por quilo do produto. ''A partir daí, a saca de 48 quilos agregou mais R$ 113 ao valor, já que foi comprada por R$ 175 e vendida, no total, por R$ 288 em média'', explica Bacceti.
Na venda ao consumidor, nova valorização. ''Vendido em pacotes de meio quilo, somamos por volta de R$ 0,80 para cada quilo do produto'', descreve Vedoato. Com mais esta soma, chega-se ao preço de R$ 326,40 por cada saca de 48 quilos. Porém, o produto dá o maior salto na valorização quando é vendido pronto, nas bancas, bares e livrarias. Considerando-se o preço médio em Londrina, de R$ 0,50 por xícara, fica claro o potencial para agregar valor.
''Uma saca comprada por R$ 175 rende mais de 15 mil xícaras. Se considerássemos o preço inicial, cada xícara custaria no máximo R$ 0,02'', explica Bacceti. ''No caminho inverso, a xícara vendida a R$ 0,50 provoca uma valorização de 2.500%'', completa.
Ainda é importante destacar que a especialização alcançada pelo produto não foi levada em conta neste cálculo. De acordo com o degustador, nos grandes centros urbanos é possível encontrar xícaras da bebida vendidas por até R$ 6,00.
A diferença de preços, no entanto, parece não incomodar o consumidor. Estudantes de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e bebedores contumazes de café, Heitor Yoshida e Paula Ziglio não se incomodam em pagar R$ 1,50 pelo cafezinho (vendido na livraria). ''Claro que quando comparamos o preço, a diferença fica escandalosa, mas ainda assim não é um valor alto. Sentamos para conversar num lugar agradável e pagamos pelo conforto'', diz o estudante.
Do outro lado, consumidores como o vendedor, José Ibrahim da Silva, tomam o café de R$ 0,50, sem se importar com conforto ou qualidade. ''Por esse preço, sei que não posso querer o melhor café do mundo'', admite.
''Já fizemos cálculos e concluímos que nossa xícara de café custa para nós cerca de R$ 0,08. Mas o baixo preço do produto nos permite praticar uma boa margem de lucro'', explicou Maciel, gerente da livraria. ''Mas também sabemos que o preço gera uma expectativa no consumidor. Um grau a menos na temperatura do café gera reclamação e temos que aceitá-la'', conclui.(A.M.)





