A Travessa Jesuíno Marcondes, localizada ao lado da Praça Osório, é composta de diversas lojas e estabelecimentos como as demais ruas do centro de Curitiba. Mas quando o sol se põe e as lojas fecham as portas, a travessa, de apenas uma quadra, se transforma. Os pedestres caminham rápido, seguram as bolsas com mais firmeza e não olham muito para o lado. Os lojistas da rua dão espaço para outro tipo de comércio. Traficantes e garotos de programa dividem o espaço na região, em busca de dinheiro e crack.
  Audrey, de 29 anos (o nome foi alterado a pedido da entrevistada), mora há cinco anos no único edifício residencial da travessa. Durante este período ela viu cenas que até hoje são difíceis de esquecer. ‘‘Nem quando estive na Bolívia, onde me ofereciam cocaína em plena luz do dia, não senti tanto medo como tenho daqui’’, conta. Audrey não leva o cartão de crédito nem os documentos originais quando sai de casa. ‘‘O que percebo é que aqui tem muito consumidor de crack que está disposto a matar por cinco reais, pois está desesperado pela droga’’, alerta. Ela diz que percebe, pelos anos que vive no local, que os usuários preferem fumar o crack na Travessa Jesuíno Marcondes, já que ali não existem câmeras de segurança, ao contrário de outras partes da região.
  Em uma noite de insônia, Audrey presenciou uma cena que diz ser parecida com as que aparecem nos filmes. ‘‘Saí na janela e vi um carro de luxo parado na rua. O motorista era obrigado a entrar e sair do veículo, diversas vezes, empurrado por dois rapazes. Liguei para o 190 (número de emergência da Polícia Militar) e em cinco minutos os policiais estavam aqui. Eles apontaram armas enormes para o carro e chamaram outras viaturas. Rapidamente outros dois carros da polícia estavam parados na frente do meu prédio e levaram os agressores presos’’, conta a moradora, que também diz ter perdido a conta de quantas vezes já viu cenas como esta na rua.
  Quando sai de manhã para trabalhar, Audrey encontra na calçada papéis picados e muitos fósforos queimados. Além disso, os orelhões da rua também estão queimados. ‘‘Percebo que ali foi feito uso de drogas’’. Sangue na calçada também é visto, principalmente quando os garotos brigam entre eles, ou quando as vítimas dos assaltos reagem e uma das partes sai ferida. Porém, nunca mexeram com ela na rua. ‘‘Na única vez que um rapaz veio pra cima de mim escutei outro gritar que não era para me assaltar, pois eu era moradora da rua. Senti como se estivesse em uma favela do Rio de Janeiro’’, desabafa Audrey.

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