A linha da miséria passa por Londrina e não é mero exercício teórico. Em áreas irregulares, bem longe dos arranha-céus e condomínios dos bairros nobres, vivem centenas de cidadãos que ainda não conseguiram ultrapassar a faixa de renda mensal per capita de R$ 125 para deixar de ser classificados como miseráveis. Segundo estudo divulgado recentemente pela Fundação Getúlio Vargas, 6 milhões de brasileiros deixaram de ser enquadrados nessa categoria.
Para saber como vivem e se vêem os londrinenses que ainda estão nessa situação, a FOLHA subiu o Morro do Carrapato (Zona Leste). Na mais nova invasão da cidade, a reportagem entrevistou boa parte das famílias e apurou que para quem não tem nada, estar abaixo ou acima da linha da miséria faz bem pouca diferença quando a preocupação maior é sobreviver.
A cinco quilômetros do Centro de Londrina, a comunidade não tem esgoto, coleta de lixo domiciliar, água ou luz elétrica - pelo menos de forma legalizada. O lixo que gera renda para a maior parte das famílias está por toda parte nos quintais dos barracos. A área particular foi invadida há cerca de um ano e meio e já tem aproximadamente 50 moradias.
Considerada como bairro pelos moradores - que preferem chamá-la de ''Santo Antônio'' e deixar os carrapatos no passado - a invasão não é reconhecida, nem rechaçada pela Prefeitura. É simplesmente esquecida. ''É bom mesmo que vocês mostrem que a gente existe, para alguém vir dar uma atenção para nós'', disparam os moradores logo que a reportagem se apresenta.
Talvez a falta de um endereço para constar nas fichas oficiais ajude a explicar por que, numa comunidade tão carente, várias famílias não recebem qualquer benefício do governo. Das 15 famílias entrevistadas pela FOLHA, nove não estão cadastradas em nenhum programa federal de transferência de renda. ''O que tenho foi ganhado com meu suor, comprado à prestação. O governo não dá nada para nós. Mas quando chega a eleição os candidatos vêm e dão a mão até para o cachorro'', ironiza o catador de papel Leandro Bruno, 23 anos.
Ele e a mulher sustentam um bebê de dois meses coletando e separando lixo reciclável diariamente, trabalho que rende entre R$ 250 e R$ 300 por mês. Leandro tem uma percepção semelhante à dos demais entrevistados quando indagado se a vida melhorou nos últimos anos. ''O que melhorou não foi bolsa-isso, bolsa-aquilo. Foi o papel que a gente cata na rua'', diz, referindo-se à popularização da coleta seletiva.
Mesmo relatando jornadas exaustivas, muitas vezes superiores a 12 horas, os catadores de papel exaltam a importância do trabalho no sustento das famílias. ''Vou lá na cidade pegar papelão naquelas lojas e estou sossegada para comprar nosso arrozinho. Eu amo meu serviço e não entrego ele de qualquer jeito porque foi o que matou a minha fome'', fala Maria Aparecida Inácia da Silva, 44 anos, que, além da semelhança no sobrenome, também é pernambucana como o presidente Luiz Inácio ''Lula'' da Silva.
Dois terços das famílias ouvidas pela reportagem vivem com menos de um salário mínimo por mês. Muito menos, em alguns casos. A conversa ligeira, de respostas sempre bem afiadas, esconde as dificuldades sentidas pelo morador Alécio de Oliveira Carvalho, 62 anos, o ''Pantanal''. O ''legítimo paranaense de Uraí que revirou o mundo inteiro'' já foi carpinteiro, pedreiro, marceneiro, pescador... Atualmente não tem mais forças para serviço pesado por causa do ferimento provocado por um peixe que lhe provoca dores horríveis. Sem trabalho, sem estudo e sem ajuda oficial, sobrevive do que lhe doam e de alguns poucos bicos.''Ganho na base de R$ 50 por mês. Às vezes, algum amigo faz uma presença comigo.''
Na invasão desde seu surgimento há cerca de um ano e meio, Pantanal conta que foi para lá saindo de outra, na Zona Sul. ''Ou vinha ou tinha que dar trabalho para filho e isso eu nunca fiz'', argumenta. Mesmo assim, não se entrega e consegue viver a vida com felicidade. ''Só saio quando Deus me tirar daqui, porque tirando meu problema de saúde o resto é alegria. Pego o meu violão e canto porque o resto está tudo beleza.''
Ex-servente com carteira assinada, o desempregado Cristiano Aparecido Azevedo, 34 anos, hoje cata papel e ''às vezes pega um lote para carpir'', mal suprindo as necessidades da esposa e cinco filhos com idades entre 8 e 14 anos. Estas ocupações garantem cerca de R$ 100 por mês. O Bolsa-Família acrescenta mais R$ 95. No final das contas, a renda per capita em casa é de R$ 28,00, quase 80% a menos do que o necessário para deixar de ser considerado ''miserável''. Embora o benefício do governo dobre a renda da família, a esposa do desempregado, Silvana de Souza, 30 anos, tem dúvidas sobre sua eficácia. ''É um pingo no meio de uma terra seca'', lastima.

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