Uma procopense na Academia Paranaense de Letras
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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018
Rubia Pimenta<br>Especial para a FOLHA 

Cornélio Procópio Em uma letra que escreveu para Maria Bethânia, chamada "Sete Trovas" (do disco Encantaria), Etelvina Arrebola de Souza Frota, 65 anos, definiu sua arte: "A canção é meu sossego/ Meu destino solidão/ Minha paz, meu desapego/ Minha dona, meu perdão". "A arte é tudo para mim. O momento em que estou produzindo é como um pequeno suicídio, quando todo o resto do mundo deixa de existir. Acaba me levando para o isolamento, mas eu acho uma delícia", conta. Tanto amor trouxe reconhecimento: em março, a procopense irá assumir uma cadeira na Academia Paranaense de Letras.
Médica de formação e morando em Curitiba, ele passou seus primeiros 21 anos em Cornélio Procópio. "Foi onde nasci, meu pai, Cândido Batista de Souza, trabalhava na rádio, e meu avô, Zé Arrebola, teve a primeira jardineira local. Ainda tenho parentes na cidade. É onde estão minhas raízes, local da minha formação."
Ela estudou nos colégios Estadual Lourenço Filho, Castro Alves, Nossa Senhora do Rosário e cursou ciências na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (Fafi, atual Uenp). "Depois passei em medicina na UEL. Eu era concursada do Banco do Brasil e me mudei pra Londrina. Estudava durante o dia e trabalhava à noite no banco. Foi um período árduo, mas minha família era simples, eu precisava trabalhar. Atuei como médica por 18 anos."
O lado artístico ela assumiu após a aposentadoria: "Há 20 anos me dedico só a isso". Ela tem 3 livros publicados: "Artigo 8º - Poesia Escrita, Falada e Cantada", de 2002, que vem com um CD; "Lyricas a Construção da Canção", de 2007; e o mais recente em 2017, o romance histórico "O Herói Provisório". "Se passa em 1850, na Ilha do Mel, e fala sobre o dia em que abriram fogo contra um navio inglês que afundou um navio negreiro próximo ao Porto de Paranaguá. Criei personagens e uma ficção sobre fatos que realmente ocorreram. Foram 14 anos de pesquisa."
O romance foi dedicado à sua professora de história do Colégio Castro Alves, Gilda Poli. "Ela nos ensinava mais que história. Queria que fossemos curiosos, que não acreditássemos com facilidade nas versões oficiais. Reconheci essa influência, por isso a homenageei."
Na música Etelvina fez estrada como compositora. Ela define suas letras como viscerais. "Não são dançantes. É um trabalho conceitual. Quase não falo de amor, sou motivada por outros assuntos". Um fato triste, que marcou sua vida, domina muitas canções: a morte do primogênito Jonas, aos 13 anos, portador de doença degenerativa, vítima de um acidente doméstico. "Muitas obras que produzo e da visceralidade que me é atribuída, é em função dessa perda". O cantor Nazi, vocalista do grupo Ira, também gravou uma canção sua, chamada "Onde os Anjos Não Ousam Pisar". "Foi feita para ele, sobre um momento importante, sua libertação das drogas". Em 2017 o grupo curitibano Tal do Trio gravou o CD "Flor de Dor", só com músicas da artista.
Etelvina também dedicou-se ao teatro: a peça "Vila Paraíso" venceu o prêmio Gralha Azul em 2004. Ela também colabora com a Folha de São Paulo e concorre a prêmios de reportagem, o mais recente sobre câncer. Além disso, comanda o programa "Poemoda", na rádio Educadora, dedicado à poesia, também transmitido pela internet. "É o que me tira da solidão", brinca. Etelvina atualmente mora com a mãe, e tem dois filhos, Luisa e Clara. "Nasci para escrever. Sou imensamente feliz e realizada com meu trabalho."


