Na Rua Conselheiro Laurindo, 792, no centro de Curitiba, funciona o Resgate Social, do Fundo de Associação Social (FAS). Na parede da recepção, são 12 fotos de desaparecidos. ''Eu te amo filho, me perdoa, volte para tua casa'', pede uma mãe que oferece R$ 1 mil por informações. Sobre o balcão, uma caixa com ''Papel Higiênico'' escrito na frente tem, em seu interior, um rolo do papel. Nas três cadeiras de espera, do lado de dentro, há dois senhores. ''Pô, não aguento mais esperar'', reclama, impaciente, um deles. Do lado de fora, nos quatro bancos de praça, há mais 11, que já passaram pelo detector de metais, na espera para se registrar e ter direito a banho, comida e hospedagem no albergue adjunto, que é terceirizado.

Alguns deles chegaram ali por conta própria. Outros fizeram como 14.948 pessoas em 2007 e ligaram para o 156 para serem resgatados por uma das 17 Kombis disponíveis. Naquele começo de noite, não havia nenhum que estava ali por ter sido encontrado pela busca ativa. Ainda.

Às 19h46, as educadoras Elisete Machado e Eliane Antunes estavam apenas começando a sua ronda noturna, quando saem pela cidade em busca de moradores de rua que precisam de um lugar para comer e dormir ou encaminhamento para cuidados médicos. Na equipe de Elisete e Eliane, ainda há outras duas educadoras e a assistente social Ivana Brum, que nos acompanha na viagem. A seguir, um relato sobre o trabalho delas na noite da última sexta-feira, em um passeio de Kombi pelas ruas de Curitiba.

- 19h46 - Saída da Central de Resgate Social, na Rua Conselheiro Laurindo. Na Kombi da frente, as educadoras Elisete, Eliane e o motorista. Na em que estamos, este repórter, a fotógrafa Letícia Moreira, a assistente social Ivana Brum e um segundo motorista. O roteiro das buscas muda com o passar do tempo e com as sugestões da comunidade. ''Os moradores de rua migram bastante'', explica Ivana.

- 19h56 - A primeira parada é na Praça Cecília do Rego. De prancheta em mãos, as educadoras abordam dois homens que estão deitados na praça. Quando perguntam sobre sua família, André Barbosa de Oliveira, cuidador de carros, responde sem hesitar. ''A família sou eu.'' A abordagem é cuidadosa e as educadoras muito atenciosas. O companheiro não topa, mas Oliveira aceita o convite. Ao ''Vamos para FAS?'', ele responde assertivamente. ''Sim, pois preciso de um banho.''

- 20h10 - Poucas quadras depois, Elisete pede e o comboio pára novamente. O jovem de 18 anos não quer ajuda. Conta seu nome e idade, mas diz que está bem. ''Ele mora na Vila das Torres. Lá tem uma briga entre duas famílias. Ele é dos Coutinho. Se chega lá essa hora, é morte certa. Por isso, só pode voltar para casa pela manhã.'' O rapaz conta que está ali para pedir dinheiro.

- 20h22 - As anotações de nomes e idades vão para as pranchetas das educadoras e, mais tarde, para o sistema. Na de Ivana, está escrita uma frase atribuída ao dramaturgo francês Molière. ''Não somos responsáveis apenas pelo que fazemos, mas também pelo que deixamos de fazer.'' Nesta parada, Oliveira, o cuidador de carros que havia entrado na Kombi para ir à central, sai correndo enquanto a equipe conversava com outras pessoas. Passamos por outra praça. Eliane pede e o motorista liga a luz alta. O que parecia, no escuro, um saco de lixo, era, na verdade, um morador de rua encolhido, que, assustado, sai correndo.

- 20h35 - Os moradores de rua são chamados pelas educadoras de ''usuários'', por se utilizarem do sistema da FAS. Na frente da Estação Rodoferroviária, dois deles dormem entre cobertores. ''Oi, ei, acorda'', repete Eliane, que, como suas colegas, veste luvas cirúrgicas durante a abordagem, enquanto encosta no senhor deitado sob a manta. Muito vagarosamente, ele levanta o tronco. Em relação ao calo na testa, diz: ''Caí na hora em que fui deitar.'' Ele sangra bastante e aceita ser levado para a central. ''Ele vai, toma um banho e o pessoal tenta convencê-lo a ir a uma unidade de saúde'', comenta Elisete. Depois de insistência da assistente social Ivana, o rapaz que estava com ele topa ir junto, pois gostaria de dormir na FAS, ainda que tenha receio de que seja mal recebido. ''Acho que ele brigou com uma turma que está sempre dormindo lá'', sugere Elisete.

- 20h47 - Juntos, chegamos à central. Os usuários descem e a viagem segue. A partir de agora, acompanhamos a Kombi em que estão as educadoras Eliane e Elisete.

- 20h59 - ''Se não se cria um vínculo, não funciona. Tem dia que eles são simpáticos, em outros nos xingam até à terceira geração.'' Apesar do trabalho pesado, Eliane não tem vontade de parar. A relação de confiança que criam com os moradores de rua é notável. Nas abordagens, fica evidente que já são conhecidas por eles. Na Marechal Deodoro, Edmilson, que dorme na porta de um restaurante, diz que seu sobrenome não importa. Enquanto conta que veio da Bolívia aos três anos, aguarda os freis capuchinhos que vão passar ali mais tarde para servir café. Está acompanhado de um cobertor e de um despertador, que o acordará às 6h45.

- 21h18 - ''Se abordarmos um desconhecido hoje, vai ser difícil.'' Elisete não exagera. E, antes de chegarmos às pessoas, fala seus nomes e sobrenomes. As educadoras conhecem, também, detalhes sobre a vida pessoal deles. ''Mas se não nos fizermos de desentendidas eles dizem: 'Vocês já sabem tudo. Por quê perguntam?''. Na Tiradentes, Eliane avista um velho conhecido de longe. ''Seo João, três horas de papo.'' O nome de batismo é Valdomiro Schuck. O apelido veio porque o gaúcho de 72 anos chamava a educadora de Emília. Há outros que têm alcunhas. ''João 1,2,3,4'', ''Zé da Boléia'' e ''Tatu'' são algumas delas. Enquanto nos encaminhamos para a Praça Osório, a outra Kombi leva para a central um usuário soropositivo que precisa de cuidados. Seo João fica para trás, mas pede que retornem no dia seguinte, em que ele promete ir junto. Pergunto para ele se a central é um bom lugar para descansar. ''Se alguém fala mal do FAS é jaguara. O pessoal é muito bom'', diz sorridente.

- 21h40 - ''Vocês não têm nada melhor para fazer, não?'', questiona um rapaz acordado pelas educadoras enquanto dormia em um banco na Praça Osório. ''Tem visto a tia?'', pergunta Elisete sem dar muita bola para o comentário. Ele relaxa e conta um pouco sobre como anda a família. Em outro banco, a poucos metros, está sentado Valdete Junior. Ele deixou a família em 1992 e, desde então, mora na rua. ''Não gosto de morar com ninguém'', diz. Quanto ao FAS, ele foi algumas poucas vezes. ''Ah, porque o lugar tava meio agonizante. Muita gente sofrendo. Não dá vontande de ficar com pessoas assim.'' Ele agradece pela conversa e nos despedimos.

- 21h56 - ''Vocês sabem correr?'', questiona Elisete à equipe da FOLHA. ''Não acredito que você vai levar eles para conhecer ela'', comenta Eliane em um tom um tanto sombrio. 'Ela' é Norma, uma argentina que mora a poucos metros da Boca Maldita. ''Ela sempre fala: 'Querem morrer? Saiam daqui!'', explica Eliane. Se Norma é brava em outras noites, nesta ela está calma e acompanhada de seu cachorro, o ''Cabruí''. ''É um nome inglês'', comenta. Sobre sua terra natal, reclama dos políticos. ''Os que estão no poder são filhos do Menem.'' Se diverte enquanto fala em espanhol e, depois de alguns minutos, pede para que vamos embora.

- 22h05 - ''Amanhã vamos conversar com todos eles de novo. Mas não tem problema. Um dia vão nos ouvir e, se conseguirmos ajudar um em 100, já valeu'', comenta Eliane enquanto chegamos à Praça do Homem Nu. ''Mas o que será que o João Félix está fazendo aqui?'', questiona Elisete. ''Em geral, ele dorme debaixo de uma marquise, do outro lado da rua.'' Ele conta que hoje não vai, mas pede para que retornem amanhã, ao que uma das educadoras toma nota.

- 22h26 - ''Mas o que será que está pegando com o senhor Sad?'', questiona Elisete. Ao lado do Terminal do Guadalupe, no centro da cidade, um senhor acena para a Kombi, indicando que está com dificuldades. Pouco depois, Sad Sulivan entra na Kombi, que tem capacidade para seis passageiros. Ao entrarmos no terminal, um usuário do sistema foge das educadoras. Há uma grande concentração de pessoas dormindo no local. Algumas delas aceitam o auxílio e, aos poucos, enchem um dos veículos. Uma senhora, que dormia em um banco, passa mal. E, com a insistência das educadoras e da assistente social Ivana topa ser levada a uma unidade de saúde.

- 23h04 - Chegamos à unidade de saúde CMUN Boa Vista. O local parece abandonado. Na recepção não há ninguém. Depois de alguns minutos, Anita Pereira é acompanhada por uma enfermeira. As educadoras pedem para que, depois, liguem para a central para buscarem a senhora.

- 23h18 - Chegamos à central enquanto a noite de trabalho vai chegando ao seu fim. Elisete e Eliane me dizem que eu tive sorte. ''É, foi uma noite bastante tranquila'', comenta a primeira. ''Como anjos protetores, às vezes temos de ter boas pernas.'' Na noite em que a reportagem acompanhou o trabalho, elas não precisaram correr de ninguém. A impressão que fica é a do carinho e a dedicação ao trabalho desses anjos da noite.

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