Uma mulher em cena Ela não sabe distinguir exatamente quando a arte se fundiu a sua vida, mas desde menina já se aventurava a montar seu próprio circo no fundo de casa. Também nesta época, queria ser médica. O grande herói da sua infância foi um médico de famílias pobres que sempre passava em um carro preto para atender aos pacientes. O sonho da menina era voltar um dia, como médica, igualmente num carro preto, para cuidar das pessoas. Hoje, ela é uma mulher da medicina e da cultura. A diretora do Festival Internacional de Londrina (Filo), Nitis Jacon de Araújo Moreira, atua também como médica psiquiatra, além de acumular as funções de professora de Artes Cênicas da Universidade Estadual de Londrina e secretária executiva da Rede de Promotores Culturais da América Latina e do Caribe. Defensora da cultura como matéria essencial e não subsidiária, Nitis Jacon encontrou nas artes a realização. ‘‘Trago comigo, espontaneamente, essa busca da vida, da realização através da arte. Sou uma trabalhadora da cultura’’, enfatiza. Nascida em Lençóis Paulista, Nitis Jacon chegou ao Paraná na década de 60, onde iniciou o curso de medicina. Nesta época, fez parte de grupos de teatro, ganhou prêmios e recebeu convites para atuar no Rio de Janeiro. Mudou-se para o Norte Pioneiro com o marido, sem concluir o curso. Em 68, participou pela primeira vez do Festival Universitário de Londrina, como jurada de música. Dois anos depois, Nitis era a diretora do Festival Universitário de Teatro. As peças começavam a se encaixar. Nitis Jacon criou o grupo de teatro Proteu e conseguiu o tão sonhado diploma em medicina. O Festival ganhou abrangência internacional, chegando ao recente projeto do Filo 2000 – Ano 0 – de Todas as Artes. ‘‘Hoje sou uma executiva de teatro’’, afirma. ‘‘Eu sempre me dediquei a essa área. Nunca queimei etapas: varri palco, limpei banheiro de teatro, fiz figurinos, trabalhei com cenários, fiz operação de luz, preparei atores, fui dramaturga e cheguei a esta atração que me honra muito e me parece bastante oportuna’’. Além dos mais variados espetáculos, este ano a organização do Filo vem trabalhando uma proposta que vai delinear o novo formato do festival: os chamados Projetos de Maio, que vão de encontro ao desejo de criar agentes comunitários que possam formar grupos, cooperativas e se organizar. Para ela, essa arte utilizada em trabalhos sociais tem sido uma grande conquista, especialmente da mulher.