Paulista de nascimento e pé-vermelho por opção – e por reconhecimento da Câmara Municipal de Londrina que lhe conferiu título de Cidadã Honorária em 2014 -, a promotora Susana de Lacerda, de 45 anos, é uma dessas mulheres que causam impacto por onde passa: se sobressaem o vasto conhecimento jurídico; a paixão pela profissão que exerce há 19 anos; a gentileza e educação com que trata as pessoas indistintamente; a busca por justiça; e, mais recentemente, a coragem para enfrentar um megaesquema de exploração sexual de meninas e adolescentes, que já levou, apenas este ano, uma dezena de aliciadores e empresários à prisão.
Entusiasmada com o Direito Penal e com os procedimentos de investigação, Susana, desde que concluiu o curso na Universidade de São Paulo, um dos mais tradicionais do País, em 1993, sabia que queria uma área do Direito que lhe permitisse "ter uma postura ativa diante dos fatos". Após ser aprovada no concurso do Ministério Público Estadual do Paraná, em 1996, passou por várias comarcas – Umuarama, Barracão, Marilândia do Sul, Guaíra e Foz do Iguaçu – até chegar em Londrina, em 2004, onde assumiu a Promotoria da 1ª Vara Criminal, responsável pelos crimes dolosos contra a vida, julgados pelo Tribunal do Júri. "Minha filha era pequena e meu marido a levava para ser amamentada, de madrugada", lembra a promotora.
Porém, "um pouco cansada" de trabalhar com homicídios – e de ver tantos casos de mulheres mortas, algumas inclusive na frente dos filhos – ela aceitou o desafio, em 2010, de assumir a 6ª Vara Criminal ou Vara Maria da Penha, onde lida, diariamente, com casos de violência doméstica e violência contra crianças e adolescentes. "Eu convivo com a dor, uma dor muito profunda das pessoas, diariamente", resume a promotora. Mas tantos relatos tristes de mulheres e de crianças não a desanimam. Pelo contrário. É daí que tira forças para se empenhar ainda mais. "Eu aprendi muito com essas mulheres que sofrem, que apanham, com essas mulheres que militam, que me estimularam a ler, a entender esse sofrimento, o que é esse ciclo de violência... Eu acho que sou uma pessoa melhor daquela de 5 de outubro de 2010", diz Susana, em referência à data da criação da Vara Maria da Penha e que assumiu a função.
Parte dessa dor provém da culpa que as mães sentem ao descobrir que os filhos são vítimas de abuso sexual. "Essas crianças e essas mães vivem momentos de terror. E essas mães se culpam: ‘como eu não vi? Onde eu estava? O que eu estava fazendo?’", conta a promotora, que tem uma filha de 9 anos e se compadece do sofrimento dessas mães. Para não desabar diante de tanta tristeza, a promotora busca se cercar de amigos e familiares. "Eu preciso de apoio espiritual, de apoio psicológico, de apoio familiar, eu preciso dos meus amigos", diz.
Esse sofrimento se acentuou em 2014, quando foi descoberto um esquema de pedofilia com crianças muito novas, envolvendo um ex-candidato a prefeito, e neste ano ao se descobrir que meninas, desde os 9 anos, eram aliciadas para fazer programas com ricos e conhecidos homens da cidade. Autodeclarando-se feminista, "no sentido de defender os direitos das mulheres", Susana atribui a ocorrência de casos como esses à cultura machista e comenta como alguns dos investigados justificaram os atos sexuais com as meninas. "Alguns réus negam. Outros disseram coisas assim: ‘se eu estou pagando eu posso’; ‘tinha corpo de menina grande’; ‘foi porque quis’; ‘era vagabundinha’; ‘já era corrompida’", conta. "E você tem que engolir seco", completa.
No entanto, entre amigos e conhecidos ela não "engole seco". Não tolera "brincadeirinhas ou piadinhas" sexistas ou ofensivas a quem quer que seja. "Esses dias me disseram que eu não tenho senso de humor com determinadas piadinhas. Eu não tenho mesmo. A gente tem que ser intolerante, intransigente com certas ‘brincadeirinhas’", defende.
A promotora também falou sobre a campanha na internet "meu primeiro assédio", em que famosas e anônimas contaram a primeira vez que sofreram assédio sexual de homens. Ao comentar o depoimento da atriz paranaense Letícia Sabatella, Susana admitiu que sofreu constrangimento semelhante, já que ia e voltava sozinha da escola, em São Paulo. "Eu achei o relato dela muito corajoso e muito real. Quem não foi uma menina que não passou por isso?"
Susana finaliza a entrevista tentando alertar jovens formados em Direito sobre a carreira no Ministério Público, que não deve ser vista como algo glamouroso, para obter status, estabilidade ou bom salário. É para quem tem vocação. "Fiscalizar os outros é uma profissão que a gente ganha muito inimigos e poucas pessoas entendem a nossa função, mas quando a gente vê o trabalho tendo frutos, é muito legal", conclui.

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